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Primavera Caipira EP01: Acorda Cosmópolis
O resultado do primeiro turno das eleições brasileiras, em 2026, configurou um cenário no mínimo preocupante para pessoas de todo o espectro político da esquerda. Flávio Bolsonaro foi o 1º colocado, ficando bem perto de vencer no primeiro turno; além de seu partido, o PL, conseguir no legislativo ampla maioria no Senado e na Câmara. A hipotética vitória do miliciano podendo controlar as principais casas legislativas e indicar pelo menos quatro ministros do STF acendeu nas esquerdas um alerta e, a partir daí, começou uma ampla mobilização em torno da campanha de Lula e contra Flávio. Houve uma série de manifestações populares em diversos centros urbanos, e uma forte mobilização nas redes sociais, capitaneada por nomes como Janones e Erika Hilton. No meio disso, foi aprovada, por pressão popular, e por quase unanimidade o fim da escala 6x1, que representou uma grande vitória para a classe trabalhadora. Esse texto é uma tentativa de olhar para o fenômeno por outra ótica que não as capitais e grandes centros urbanos, já que essa visão já predomina nos principais veículos de imprensa e mídia.
Nesse contexto de mobilização contra o avanço do fascismo, surgiu em minha cidade, Cosmópolis, interior de São Paulo, região metropolitana de Campinas, cidade de 70 mil habitantes, da noite para o dia, um movimento antifascista chamado “Acorda Cosmópolis” puxado, em sua maioria, por jovens secundaristas, mas que depois foi ganhando adesão de outros setores, até da esquerda partidária. O grupo surgiu há poucas semanas (é difícil precisar a data), mas já se mobilizou para confeccionar, imprimir e colar cartazes; participar de manifestações; e criar conteúdos para as redes sociais. No dia 11/10 o grupo se dividiu, uma parte foi para Campinas para engrossar a “Marcha pela Democracia”, que se concentrou no Largo Rosário a partir das 9h da manhã, e marchou pelas ruas do centro da cidade. Outra parte ficou em Cosmópolis, onde houve uma manifestação na cidade, na Praça da Bíblia, puxada pelo PT e PSB, únicos partidos de esquerda e centro-esquerda com diretórios na cidade.
Tenho conversado muito com os integrantes do movimento, do qual me tornei um colaborador recorrente. Percebo neles um espírito muito diferente daquele das jornadas de 2013, muitos deles se assumem como pessoas de esquerda e antifascistas. Vários deles inclusive se identificam com o comunismo. Figuras da esquerda proeminentes na internet, como Jones Manoel e Erika Hilton, são as grandes referências deles. Tenho a impressão que eles se identificam com a esquerda por vários motivos, por se tratar de uma cidade pequena, a política é sentida muito mais no dia-a-dia e percebo que vários deles, se não todos, são beneficiários das políticas públicas, sinto que essa é a principal motivação do posicionamento deles. Também há a questão da identificação com as chamadas “pautas identitárias”, mas também com as pautas do trabalhador, essa dualidade que existe na cabeça de alguns caciques da esquerda parece não fazer nenhum sentido para eles, sinto que eles vêem as lutas trabalhistas e identitárias como intimamente conectadas (inclusive, me identifico com essa visão).
A pauta da soberania digital volta e meia aparece, mas não ganha adesão e corpo, mas só do fato de estar no radar já me deixa satisfeito. Fizemos um grupo no Signal e consegui arrastar uma pessoa do movimento para a instância do Mastodon que administro, a Ayom. Como alguém que ativamente se articula contra a big tech, a favor da liberdade e transparência tecnólogica, tenho aprendido com esse movimento a ter um pouco de paciência. O Instagram não vai perder importância para as pessoas do dia para a noite, e eu sinto que essa juventude tem a sua subjetividade fortemente moldada e conectada a ele. Acho que precisamos de várias frentes: a ocupação estratégica e inteligente dessas redes pela esquerda; a denúncia jurídica das arbitrariedades cometidas pela big tech e interferência nas nossas eleições; e a criação e gestão de espaços alternativos, construindo a internet na qual acreditamos e queremos estar. É nessa última frente que trabalho e reconheço a importância do trabalho nas outras duas também.
Dito isso, caso você utilize Instagram e/ou TikTok, eu te convido a seguir as páginas do movimento, e também ajudar a engajar o conteúdo deles, curtindo, compartilhando, comentando, etc, vocês já sabem o roteiro. O conteúdo varia de denúncias às mentiras de Flávio Bolsonaro; registros da mobilização na cidade; e também alguns conteúdos de humor, numa linguagem bem típica do TikTok:
https://www.instagram.com/acordacosmopolis/ https://www.tiktok.com/@acordacosmopolis
Por último, coloquei o título deste texto como “Primavera Caipira” porque conversando com algumas pessoas do movimento e também com outros colegas, estou com a sensação de que estão pipocando diversos movimentos de características semelhantes pelo interior paulista, sei que em Conchal também há um desses, com envolvimentos de umas 200 pessoas. Participei da “Marcha pela Democracia” em Campinas, e conversei com algumas trabalhadoras dos comércios na rodoviária, e elas me disseram que a movimentação de gente chegando e indo para o ato foi gigantesca. Tenho a impressão que essas pequenas células no interior paulista ajudaram a inflar o ato em Campinas. Não tenho a dimensão das proporções reais desse fenômeno, mas achei válido fazer o registro dele aqui pelo interior paulista, começando por Cosmópolis, mas pretendo fazer um breve raio-x de outros movimentos similares. Se você conhece algum movimento com essas características, no interior de São Paulo, ou mesmo no interior de outros estados, naquilo que chamam de “Brasil Profundo”, mande um e-mail para felipesiles@anartist.org, vamos conversar, e quem sabe você me fornece material para continuar a série. Acredito que é muito importante esses movimentos eclodirem no interior, que é completamente abandonado pela maioria dos intelectuais acadêmicos e pelas esquerdas institucionais. Partidos como UP, PSOL, PCdoB e PCB sequer possuem diretórios por aqui. Se queremos conquistar os corações das multidões para o lado esquerdo da força é de vital importância estar nesses territórios, espero que as esquerdas aprendam essa lição, e este texto é uma humilde contribuição nesse sentido.
> Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima! Felipe Siles é pesquisador musical, educador e produtor cultural. Escrevo esta coluna voluntariamente, mas se quiser me pagar um cafezinho e contribuir para que eu escreva mais, segue minha chave pix: felipesilespix@protonmail.com Este blogue não possui nenhum compromisso com a chamada big tech nem com a divulgação nas redes antissociais, então se você quer receber as postagens novas, sugiro utilizar um agregador RSS e acrescentar nele o seguinte link: https://blog.ayom.media/felipe-siles/feed/
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