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Por um vegetarianismo brasileiro
O Guia alimentar para a população brasileira do Ministério da Saúde foi, sem dúvida, um dos livros mais importantes que li na minha vida. O qual continua reverberando até hoje, depois de anos da primeira leitura, nos meus hábitos e na maneira de me relacionar com a comida. Para quem não leu, recomendo fortemente: é um antídoto poderoso contra a forma como influenciadores têm conduzido a alimentação no senso comum, focando apenas na racionalidade e na nutrição. Comida não é apenas um punhado de vitaminas e proteínas; é afeto, preparo, tradição, socialização, identidade, cultura e soberania. O Guia Alimentar me chamou a atenção para o conhecimento ancestral e civilizatório que as diferentes culturas brasileiras carregaram ao longo dos anos. Esse saber envolveu o desenvolvimento de tecnologias para alimentar os seus, promovendo tudo aquilo relacionado ao alimento.
Sou ovolactovegetariano desde criança. Segundo minha mãe, quando descobri o que era carne não quis mais comer, no que foi respeitado por ela. Como não havia outros vegetarianos na família, e minha condição social era precária, a minha alimentação na infância e na adolescência foi muito restrita, baseando-se sempre nos mesmos pratos, basicamente: arroz, feijão, salada e ovo. Não que essa alimentação seja ruim— longe disso; a partir do que aprendi com o Guia Alimentar, parece-me bem saudável e balanceada. Porém, foi só depois de entrar na universidade pública que pude ampliar o meu leque cultural (e, consequentemente, o alimentício) para culinárias com ampla riqueza de pratos vegetarianos, como a indiana, a chinesa e a árabe, entre outras. Mas, embora ame essas culinárias, é difícil conectar-se com pessoas do cotidiano por esses pratos; o público que conhece e usufrui dessa culinária é altamente restrito.
A partir da leitura do Guia, comecei a ficar mais atento aos pratos brasileiros originalmente sem carne ou facilmente adaptáveis para versões vegetarianas, com o objetivo principal de me conectar com as pessoas. Afinal, um dos maiores entraves para os vegetarianos é o aspecto social da alimentação, que é fundamental. Somos vistos de fora como pessoas radicais, contra o consumo da carne, que querem mudar os outros. Pelo que eu observo, é justamente o contrário: a maioria de nós somos pessoas bem tranquilas que respeitam os hábitos e culturas das outras pessoas, e normalmente são os outros que querem e tentam nos mudar. Inclusive, tenho muito respeito por todas as culturas que têm a carne como uma de suas bases alimentares e festivas, incluindo diversas culturas indígenas, quilombolas, tradicionais e regionais.
Sou uma pessoa que gosta muito de cozinhar e preparo meus alimentos praticamente todos os dias. Também adoro viajar; a vida acadêmica e artística me permite frequentar congressos, festivais e eventos em todo o Brasil com certa periodicidade. Sempre que visito um lugar novo, procuro observar atentamente os hábitos alimentares locais, para aprender com eles. Juntei o conhecimento adquirido nas viagens, meus hábitos e reflexões, com uma pequena ajuda da Maritaca, uma LLM totalmente brasileira. Com isso, fiz duas listas: uma de pratos originalmente vegetarianos e outra de pratos facilmente adaptáveis para versões vegetarianas
**Originalmente, vegetarianos:** Farofa de banana (AM/PA), Cuscuz nordestino (CE/RN/PB/PE), Mungunzá salgado (BA/PE), Canjica salgada (variação regional), Baião de dois (CE/NE), Farofa de dendê (BA), Arroz com pequi (GO/MT), Farofa de guariroba (GO), Pamonha salgada (GO), Feijão tropeiro (MG/SP) e Pão de queijo (MG). Couve refogada (MG/SP), Angu (MG/ES) e Pinhão cozido ou assado (SC/RS).
**Facilmente adaptável para versões vegetarianas:** Tacacá (PA), Maniçoba (PA), Pirarucu de casaca (AM/PA), Caruru (BA), Vatapá (BA), Virado à paulista (SP), Tutu de feijão (MG), Feijão tropeiro (MG/SP), Canjiquinha (MG), Barreado (SC), Sopa de capeletti (RS) e Puchero (RS).
Para ovolactovegetarianos como eu, a boa notícia é que o Brasil possui uma ampla variedade de queijos. Segue uma lista por regiões:
Norte: Queijo de búfala do Marajó (PA) e Requeijão do Marajó.
Nordeste: Queijo coalho (CE, PE, BA,PB), Queijo manteiga (PB,PE), Queijo de manteiga do Seridó (RN,PB), Queijo coalho defumado (CE) e Ricota de coalho (BA,SE).
Centro-Oeste: Queijo do Pantanal (MS), Queijo de Goiás e Manteiga de Goiás.
Sudeste: Queijo Parmesão de Araxá (MG/SP) e Queijo de Búfala Fresco (Vale do Ribeira/SP). Incluem-se também o Queijo Canastra do Alto Paranaíba (MG/GO) e o Queijo Minas Artesanal (QMA), que abrange as variedades Canastra (Serra da Canastra), Serro (Vale do Jequitinhonha), Serrano (Serra do Salitre) e Cerrado (região central de MG) Mettius (Alto Paranaíba), Reino (Sul de Minas), Parmesão do Cerrado (Patrocínio/Araxá)e Queijo do Laticínio Escola (UFV).
Região Sul: Queijo Colonial (RS/SC), Queijo Serrano (Campos de Cima da Serra — RS/SC), Queijo Artesanal Serrano do Planalto Sul (SC), Queijo Prato (RS), Queijo Mussarela de Búfala (PR/SP/RS)e Queijo Parmesão estilo Reggiano (PR/RS).
Esse texto não tem pretensão científica ou nutricional, é apenas um compartilhamento de minhas reflexões, estudos, pesquisas e hábitos no que diz respeito à alimentação vegetariana enraizada nas culturas locais, que são muito ricas. De todas essas listas, os alimentos mais presentes na rotina são o cuscuz nordestino, os queijos (minas e coalho principalmente), a couve refogada, o pão de queijo e a farofa de dendê. Mas o principal é que ampliar o leque alimentício pela culinária brasileira facilitou a conexão com as pessoas, tanto onde moro, como em minhas viagens. Afinal, tudo se torna mais fácil quando você conhece os pratos típicos do lugar que já são vegetarianos e os que são facilmente adaptáveis. A qualidade das relações melhora muito quando as pessoas sentem que compartilham com você a mesma comida e, portanto, a mesma cultura. O texto não é guia de como fazer ou como se alimentar, mas espero que ajude outras pessoas vegetarianas a diversificar suas alimentações e a se conectarem com suas culturas locais.
> Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima! Felipe Siles é pesquisador musical, educador e produtor cultural. Escrevo esta coluna voluntariamente, mas se quiser me pagar um cafezinho e contribuir para que eu escreva mais, segue minha chave pix: felipesilespix@protonmail.com Este blogue não possui nenhum compromisso com a chamada big tech nem com a divulgação nas redes antissociais, então se você quer receber as postagens novas, sugiro utilizar um agregador RSS e acrescentar nele o seguinte link: https://blog.ayom.media/felipe-siles/feed/
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