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"O dono e o mal", de Bruno Ribeiro: quando a única saída possível é para baixo
Alguns anos atrás, recebi um e-mail do jornalista e escritor Tiago Rogero. Ele havia lido o primeiro volume de Tênebra – Narrativas de horror brasileiras (Fósforo), que organizei ao lado do Júlio França, professor da UERJ, e nos convidava para participar de uma conversa no podcast da Rádio Novelo sobre histórias de horror escritas e protagonizadas por pessoas negras. Aceitamos na hora, claro. Eu havia lido trechos do Projeto Querino, que recontava a história do Brasil a partir de uma perspectiva afrocentrada, e tinha me tornado fã do Rogero, que o idealizou. No papo (disponível neste link), veio a pergunta que tantas vezes o Júlio e eu nos fizemos ao longo de nossas pesquisas: onde estão as histórias brasileiras de horror escritas por pessoas negras? Onde estão os fantasmas de escravizados, os espectros de tanto sofrimento? Num passado marcado por tamanha violência, para onde escorreu todo o sangue? Demos as respostas possíveis. No recorte temporal do primeiro volume de Tênebra, o século 19, havia pouquíssimas pessoas negras publicando ficção sombria. Casos como o do catarinense Cruz e Sousa, que escreveu “Consciência tranquila” — uma das mais perturbadoras histórias a tematizarem o sofrimento de pessoas negras —, são a exceção que confirma a regra. E a regra eram homens brancos, geralmente em posição de poder, a publicarem e decidirem o que era publicado. É verdade que alguns desses homens tematizavam a escravidão em relatos arrepiantes. Mas só em tempos recentes as pessoas negras conquistaram a palavra para contarem, elas próprias, suas histórias no dialeto do horror. Impulsionadas pelo pioneirismo de Toni Morrison e, recentemente, pelo sucesso de Jordan Peele, elas compõem o black horror (horror negro), que se tornou um dos movimentos mais vibrantes do gênero, tanto no cinema quanto na literatura. Os americanos Victor Lavalle, Tananarive Due, P. Djèlí Clark e Nana Kwame Adjei-Brenyah, assim como a britânica Helen Oyeyemi, são exemplos de autores que extraem, do horror real, a seiva que alimenta o gênero ficcional. No Brasil, o nome de Bruno Ribeiro tem se destacado nesse âmbito. Desde que despontou em 2022 com Porco de raça (DarkSide), que poderíamos chamar de um thriller distópico com cargas de horror, o autor mineiro radicado na Paraíba vem sendo associado às expressões literárias mais imaginativas cujo centro são personagens negros e suas vivências. Representa, assim, o movimento da literatura brasileira em direção às margens, não só na perspectiva de quem antes não podia contar a própria história, mas também na forma de tratar de temas que, até então, só pareciam caber no realismo e em outras vias miméticas de se narrar. Desigualdades, dívida histórica e violências de todos os tipos sempre moveram livros de nosso passado; mas o uso do fantástico ou do horror parecia deslegitimá-los ou diminuí-los. Hoje, veja só a ironia, são justamente esses gêneros que vêm renovando a abordagem das mazelas do país. Aqueles espectros, que mal existiam no século 19, não só passaram a ocupar o centro de narrativas, como têm muito para contar. Prova disso é O dono e o mal (Alfaguara), o recém-lançado romance de Ribeiro e o projeto mais ambicioso do autor. Em linhas gerais, o livro trata das tensões entre duas famílias de uma cidade fictícia do interior paraibano, Brejo do Livramento. São os Farias de Assumpção, pobres, pretos e despossuídos; e os Lucena Neumann, brancos, ricos e donos. Sobre a trama paira, agourento, o personagem misterioso chamado apenas de “O inglês”. A primeira cena do livro prenuncia a problemática relação entre os dois clãs: Cássio Lucena Neumann e Valéria Farias de Assumpção aceleram em uma moto à noite. Estão a caminho do hospital para interromper uma gravidez indesejada, fruto de uma relação casual, e sofrem um acidente. A ocorrência leva as famílias à mesa de negociação para evitar problemas maiores, e os Lucena Neumann oferecem aos Farias Assumpção o terreno em torno do qual se desenvolverá a história. No mesmo lugar, décadas antes, o patriarca dos Neumann, um oficial nazista que fugira para os ermos do nordeste, vivera incógnito como dono de bar até os agentes do Mossad o encontrarem na década de 1950. Mas ele deixara um tesouro para as gerações futuras da família: a partitura original da terceira sinfonia de Beethoven, a Eroica, comprada por uma pechincha em um leilão. Com a fortuna levantada pela venda da peça, os Lucena Neumann investiram em cachaça e se tornaram a família mais poderosa daquele pedaço de mundo. Sua história é contada em algumas poucas páginas, em compasso acelerado, para que cheguemos ao que realmente importa: os Farias de Assumpção. Cuja saga começa com Batista, o patriarca, cortando árvores no interior da Amazônia durante a ditadura, nos tempos de Médici. Como milhares de nordestinos, ele foi trabalhar na construção da rodovia Transamazônica. E aqui, Ribeiro nos mostra a real dimensão de seu projeto: entrelaçar a história das famílias à do próprio país. Batista é um homem bruto em um ambiente hostil e miserável, e vai sobrevivendo como pode. Entre muitos deslocamentos da trama, alguns excessivos, acaba preso. Mas havia chamado a atenção do próprio Médici, outro dono, que o convoca para compor as forças de repressão do regime. Batista, então, se transforma em matador, o que lhe dá passe livre para conhecer as cochias do sistema que devastou o país — incluindo a “Granja Garrastazu”, onde, em parceria com a CIA, os líderes do regime faziam experimentos mórbidos com prisioneiros. À la Dr. Moreau, mesmo, para transformá-los em super-homens. O horror entra em cena; a prosa incisiva de Ribeiro não nos poupa de nada. Batista havia se livrado da cadeia, mas fora levado diretamente para o coração do mal. O preço de sua liberdade foi se tornar cúmplice do poder hegemônico, aquele mesmo que cuidava para que tudo permanecesse exatamente como estava. Quando achava que estava escapando para cima, Batista na verdade era lançado para baixo, aos últimos círculos do Inferno. “This is my negro, my great soldier”, brada Médici para os agentes estadunidenses. Este falso e irônico movimento também é o centro nevrálgico do romance de Ribeiro. É o que conduz a aventura de Graciliano, filho de Batista e protagonista tardio de O dono e o mal — sua história havia sido antecipada na segunda parte do livro, “Traidor”, mas só é retomada na quinta parte, “Fiteiro Brasil”. Sua ascensão para baixo é mais vertiginosa do que a do pai: emigrado para o Rio de Janeiro, torna-se líder de uma facção criminosa e, após um conflito no morro, se vê obrigado a voltar para a cidade natal, escondido. Em Brejo do Livramento, no terreno recebido dos Lucena Neumann, sua família conduz o restaurante Recanto Feliz, que acaba configurando uma alternativa de redenção possível. Modesta, mas digna e possível. Graciliano, porém, a recusa intuitivamente. Durante seu longo trajeto de volta para casa, passando por bibocas e hotéis de beira de estrada, ele tem estranhos encontros com um velho de aparência excêntrica — o mesmo com quem seu pai se deparou anos e anos antes. É “O inglês”, que corporifica o sobrenatural no romance. Entidade antiquíssima vinda de outro plano de existência, é o encarregado de fazer com que tanto os donos quanto os males continuem prevalecendo. O inglês aparece em momentos culminantes da história para se certificar de que ela não mude um milímetro sequer. E se aproxima mais daqueles nos quais fareja um pendor para a violência, como Batista e Graciliano. O personagem acrescenta mais uma camada às outras várias do romance. Por vezes, pode soar como enxerto, pois a história indica que tanto Batista quanto Graciliano cairiam pelas próprias mãos. Pode soar como se Ribeiro estivesse preocupado em reforçar sua filiação ao horror sobrenatural que amplifica as desigualdades do país — o que não seria necessário, pois a carga de violência de seu texto e outros eventos apavorantes aqui e ali já dão conta disso. O desfecho situa melhor O inglês dentro do intrincado universo ficcional de O dono e o mal, mas permanecemos com a sensação de que a história caminharia bem sem este personagem. E se no geral a história caminha bem, é graças ao talento do autor para elaborar personagens de grande força, e para criar espaços impressionantemente vívidos. Bruno Ribeiro domina a arte das insignificâncias indispensáveis, dos excessos exatos. São os detalhes sem importância aparente que tornam tudo mais verdadeiro, e nosso transporte para Brejo do Livramento, mais prazeroso. Cada um dos muitos episódios do romance vem ricamente adornado com pistolas de Tchekov que não disparam, e que estão ali para o nosso puro prazer de contemplá-las. No todo, e apesar de nem sempre manter a coesão, O dono e o mal coloca o Brasil no espelho. Um espelho distorcido pelo trauma e pelo horror; mas ainda assim — ou mais do que nunca — somos nós do outro lado.