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BK’ comenta preparativos para show no Maracanã e fala da ligação entre o sucesso e sua mãe
“Antes de ser o realizador, você tem que ser o sonhador, mano. E eu sou o sonhador até hoje. Sempre visualizei o rap me levando para onde eu quisesse estar.” E levar o rap aonde ele jamais chegou no Brasil, esta tem sido a missão de Abebe Bikila Costa Santos, de 37 anos, cria de Jacarepaguá, Zona Sudoeste do Rio, batizado pela mãe com o nome do etíope que entrou para a História por ter sido o primeiro homem a vencer duas maratonas olímpicas.
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Conhecido do Brasil inteiro como BK’, o MC chega dia 16 de janeiro ao Maracanã com o show de comemoração dos dez anos de seu álbum de estreia, “Castelos & ruínas”. Que, antes disso, passa por grandes palcos em Porto Alegre (KTO Arena, no próximo dia 24), Salvador (Arena A Tarde, no dia 19/11), Belo Horizonte (Arena Hall, em 28/11) e Curitiba (Igloo Super Hall, 19/12).
Fôlego para tanto desafio, o artista mostrou ter: a turnê estreou no último dia 19, em São Paulo, num Allianz Parque com um público de mais de 50 mil pessoas e participações de Marcelo D2, Djonga, Evinha, Luccas Carlos, L7nnon, Sain, Akira Presidente e Febem.
Antes dessa turnê, realizada em parceria com a produtora 30e, o rapper já havia dado provas do tamanho que conquistara no rap ao encher a Praça da Apoteose, às próprias custas, em duas ocasiões: em 2024, no encerramento da turnê do álbum “Icarus”; e no ano seguinte, com o festival Gigantes, que montou para fazer o lançamento do seu álbum “Diamantes, lágrimas e rostos para esquecer”.
— Inclusive, na última vez na Apoteose eu fiquei muito mais nervoso do que no Allianz, porque nunca tinha cantado as músicas, era tudo novo. Ali, a gente só conseguiu ensaiar 100% no dia do show, então era muita adrenalina, tudo muito pensando nos mínimos detalhes, tentando errar o mínimo possível — conta ele ao GLOBO. — No Alllianz, estava feliz, mano, estava solto, já tinha vivido duas experiências. A gente foi se preparando para fazer esses grandes espetáculos, em grandes palcos, para saber lidar com uma multidão. Acho que, agora, um show para 500 pessoas é que é o mais difícil de fazer!
‘Cabeça a milhão’
A pressão do Maracanã é forte para esse carioca.
— Evito ficar ansioso por antecipação. Quando chegar na semana do show, aí sei que minha cabeça vai ficar a um milhão, é quando a galera começa a pedir ingresso, a pedir um monte de coisa, gente a toda hora ligando e a gente tendo que ensaiar, fica aquela confusão. Mas (o Rio) é a nossa casa, e a gente já vendeu mais ingressos do que no show de São Paulo — revela BK’, com uma provocação ao público do Rio. — Eu nunca senti aquilo (que senti em São Paulo) em nenhum show, todo mundo cantando, quase três horas de show, a energia não baixou hora nenhuma. Sei que no Rio vai ser melhor, mas só vou acreditar na hora, vendo!
Para o show do Maracanã, BK’planeja trazer para o palco boa parte dos convidados que se apresentaram com ele em SP, e algumas surpresas, mas está dependendo da disponibilidade de datas dos artistas. Seu show acontece um dia depois que os gigantes americanos do rock System of a Down e Faith No More tocam no mesmo estádio, em espetáculo promovido pela mesma 30e.
— De certa forma vai ser bom, porque a gente vai tentar aproveitar algumas coisas da estrutura. O ruim é que eu não vou conseguir ir no show do System (risos) — brinca ele, acrescentando que durante um bom tempo sequer pensou em Maracanã já que “queria concentrar todas as energias no Allianz”. — Eu achava que ali já ia ser um desafio bem grande, me imaginava cantando lá bem mais para frente, daqui a uns cinco, seis anos. E aconteceu agora, foi uma surpresa muito boa. No Rio, pensamos em fazer alguma coisa de graça, na rua. Ou então três noites na Fundição Progresso. Mas aí a gente falou: “Cara, a gente não vai conseguir devolver para o Rio de Janeiro da mesma forma.” Tudo que a gente fez foi se arriscando. Por que não ia se arriscar agora?
O rapper BK', no Maracanã
Divulgação/Pepe Rodrigues
Nessas horas, BK’ pensa muito na mãe, a educadora e pesquisadora Ana Cristina Gomes, uma das fundadoras do Movimento de Mulheres Negras do Rio de Janeiro, que faleceu em agosto do ano passado, após um transplante de coração.
— Não há nada que pague o ensinamento que ela me deu, mas acredito que, dentro desses dez anos que tive de carreira, a gente conseguiu curtir bastante. Consegui deixar minha mãe bastante orgulhosa. Lembro que ela falou: “Pô, eu olho para você e para o seu irmão, eu fico realmente feliz de ver que eu eduquei vocês certo. Eu fiz a coisa certa” — emociona-se. — Não sou perfeito, mas tu não vai me ver fazendo um monte de merda, não vai me ver destratando os outros, achando que sou Deus. Isso, por causa do que a minha mãe me ensinou, isso por causa do caráter que minha mãe me deu. Ela foi uma pessoa que criou sozinha dois moleques pretos no Rio de Janeiro. Então, quando consigo fazer várias coisas, significa que a minha mãe conseguiu também.
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Em 2016, quando lançou “Castelos & Ruínas”, BK’ era, em suas próprias palavras, “um rapaz comum, que estava tentando encontrar o seu caminho”.
— Muita gente associa o castelo à riqueza, mas o que eu queria ali era realmente encontrar um sentido. Quando canto as músicas desse disco, aquilo soa para mim como uma pessoa que quer se encontrar no mundo, que quer encontrar seu propósito, sua missão. É alguém que não está necessariamente perdido, desesperado, mas que fala: “Beleza, tô aqui, e agora, pra onde é que eu vou? O que vai acontecer?”
Na época, o rapper (que chegou a participar de batalhas de rima na Lapa) tinha deixado o Nectar Gang, grupo que “já tinha um respeito na rua, fazia um show ou outro e conseguia ganhar um dinheiro, mas não um dinheirão”.
— Sempre pensei no rap como trabalho — conta. — No Nectar, era eu e mais três pessoas, então você acaba rimando menos para ficar um suingue legal, para dividir os versos, cada um ali tinha um espaço. Já no “Castelo e Ruínas”, eu tinha muito coisa para falar. Era vontade de ser visto, de fazer valeu. Hoje eu faço rap 20 horas por dia, naquela época era 24 horas por dia escrevendo, escrevendo, escrevendo, pegando beats na internet, rimando sobre os beats, escrevendo, escrevendo...
‘Disco clássico’
Inicialmente, “Castelos & Ruínas” ia ser só uma mixtape solo, mas “depois de pronto, a gente falou: ‘Cara, isso aqui tem uma unidade, já é um BK’ diferente do BK’ do Nectar’.” Depois de uma audição promovida na galeria Homegrown, na Tijuca, o disco chamou a atenção da cena do rap. Um ano depois do lançamento, BK’ soltou três clipes comemorativos que fizeram mais barulho ainda para o disco.
— Aí eu consegui enxergar, botar o pé e acreditar que aquilo ali era o meu trabalho. “Castelos e Ruínas” é o único disco que eu sabia que estava pronto. Quando lancei, tinha uma certeza bizarra dentro do peito, assim de que seria o divisor de muita coisa na minha vida. Eu sempre sonhei em fazer um disco clássico, a sorte é que foi logo no primeiro (risos) — gaba-se ele, reconhecendo que, para além da sonoridade diferente do que rolava no rap do Rio, “Castelos e Ruínas” trouxe a novidade da introspecção. — Ouvindo hoje, não o acho a coisa mais introspectiva do mundo, mas, talvez pelo contexto da época, ele seja um disco que se volta muito não só para as dúvidas, mas para os pontos de vista
Fechado um ciclo, com as comemorações dos dez anos de “Castelos & Ruínas” (que seguem com o lançamento, em breve, de um álbum de remixes com participações ilustres — inclusive a do saxofonista americano e astro do jazz Kamasi Washington), BK’ parte para os próximos dez anos de sua carreira.
— Quero me reinventar, já venho estudando algumas coisas de sonoridade, nunca vou deixar de ser eu mesmo, mas quero trazer algumas ideias novas — diz ele, que não pensa, por enquanto, em fazer rap em inglês, para o exterior (seu foco é o Brasil). — Meu inglês é horrível! Meu inglês é para chegar na loja, comprar alguma coisa e ir embora. Se tiver que conversar eu já fico nervoso, começo a procurar as palavras e já não quero mais falar.
As perspectivas para o rap no país, acredita ele, são as melhores.
— As gravadoras estão começando a olhar realmente para o rap, em termos de trabalho, de business, ele vem num crescimento interessante. E as minas vêm tirando muita onda, eu acredito que elas vão conseguir ocupar esse lugar do rap mainstream, igual às divas e os cantores pop. Nosso maior desafio é fazer a música crescer e chegar a mais lugares, e que o rap seja uma porta não só para música rap, mas para cultura hip hop no geral — torce. — Porque é incrível o aumento dos fãs de rap se posicionando para a extrema direita. Mas por que que isso acontece? Porque a música chegou, mas não chegou a cultura. Chegou o flow, chegou o beat, mas não chegou a história, não chegou a base.