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Apos recriarem o lobo-terrível, cientistas podem (e devem) despertar outras espécies extintas?
Ainda sob questionamento, anúncio feito pela empresa Colossal Biosciences reacende debate técnico e ético sobre 'desextinguir' animais como o mamute e o dodô O anúncio da empresa Colossal Biosciences de que conseguiu ressuscitar um animal extinto, o lobo-terrível, reacendeu o debate técnico sobre se a alegação é crível quanto o debate moral sobre se ela é desejável.
A tentativa de reavivar criaturas já inexistentes por meio de clonagem e manipulação genética não é nova. Na ficção e na realidade, a ideia ganhou força na década de 1990, quando o livro Jurassic Park se tornou best-seller e britânicos anunciaram a clonagem da famosa ovelha Dolly.
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O gosto da Colossal pelos holofotes e confusão do imaginário público entre ciência e arte nesse tema já vinha gerando um certa desconfiança na academai sobre se a empresa estava levando a sério a possibilidade de reviver espécies em grande escala. Mas a CEO da empresa, Beth Shapiro, deu declarações que não deixam dúvida das intenções do projeto.
— A preservação de espécies nunca foi mais urgente do que é hoje, e não é importante só para que elas continuem existindo — afirmou no anúncio do sucesso de seu último projeto. — Juntas, a Colossal e a comunidade científica como um todo estão comprometidas com nosso esforços para 'desextinguir' aquelas que perdemos.
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O sucesso anunciado pela empresa, até aqui, parece ser uma exceção, e não foi aclamado por unanimidade entre cientistas. Diversos projetos para recriar animais extintos já foram anunciados: poucos tiveram avanço incremental, muitos naufragaram. Na lista dos fracassos estão o íbex-dos-Pirineus, clonado em 2003 a partir da última fêmea viva da espécie, que resultou num único filhote que sobreviveu poucos minutos.
O projeto Tauros, da empresa Rewilding Europe, é um dos poucos mais reconhecidos, porém com um objetivo menos ambicioso. Os cientistas do grupo tentam repopular áreas selvagens da Europa com bovinos similares ao auroque, boi pré-histórico que habitava a região. Os indivíduos modernos da espécie foram reconstituídos em sua maior parte por cruzamento, porque o auroque é ancestral das vacas modernas.
Outras histórias de fracasso (incluindo as tentativas iniciais que culminaram em Dolly) deixaram um rastro de abortos, embriões e fetos malformados e problemas de saúde nos animais nascidos, possivelmente oriundos do processo de clonagem. O projeto Lazarus, que cientistas australianos conduziram para tentar reavivar o sapo do gênero Rheobatrachus, terminou produzindo apenas algumas centenas de ovos que não resultaram em nenhum girino.
A alegação da Colossal de que conseguiu recriar uma espécie pela primeira vez supostamente sem resultar em abortos, espantou alguns especialistas.
Em primeiro lugar, muito se discutiu sobre se os três filhotes apresentados pela empresa são mesmo, no sentido estrito, lobos-terríveis como os que rondavam as Américas há 10 mil anos (e que apareceram na série de TV Game of Thrones). A companhia reconhece que não usou o DNA completo do animal para gerar os embriões que deram origem a esses indivíduos, reconstruídos a partir de gametas com algumas dezenas de genes modificados em laboratório.
Usando lobos-cinzentos como o organismo base para projetar a nova criatura, o resultado teria sido apenas uma espécie de lobo "transgênico", que possui algumas alterações genéticas. Conseguindo reproduzir as características físicas da espécie (pelagem branca, focinho alargado e musculatura mais robusta), porém, a argumentação técnica contra um resultado de sucesso acabou ofuscada pelas fotografias dos jovens animais, mostrados pela primeira vez na capa da revista Time.
A escolha da imprensa popular, e não um periódico acadêmico, para a grande revelação, não foi surpresa, uma vez que a Colossal não costuma revelar detalhes técnicos sobre seus trabalhos. Se a falta de transparência gera desconfiança por parte da academia sobre as alegações, o fundador da empresa George Church, estrela da Universidade Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, tem conferido peso e alguma credibilidade ao projeto.
'Desperdício colossal'
Detalhes técnicos à parte, poucos cientistas têm levado a proposta da Colossal a sério como algo que realmente pode ajudar a reverter a extinção da espécies, tampouco na conservação de animais ameaçados que ainda lutam para não desaparecerem.
O cientista Stuart Pimm, da Universidade Duke, um dos ecólogos mais respeitados do mundo, têm sido um crítico das propostas de "desextinção", descrevendo-as como um exibicionismo tecnológico que não resulta em nada concreto para salvar a biodiversidade do planeta.
"Criar a expectativa de que a biotecnologia pode reparar os danos que estamos causando à biodiversidade do planeta é extremamente prejudicial", escreveu Pimm, em artigo para a National Geographic há doze anos. "Sem uma resposta para as perguntas 'onde colocamos esses animais que serão criados?' e 'o que mudou no habitat original desses animais que pode ter contribuído para sua extinção?', os esforços para trazer de volta essas espécies são um desperdício colossal".
Se a empresa Colossal se enquadra na preocupação levantada por Pimm, ela terá sido um desperdício de US$ 10 bilhões. Esse é o valor estimado da empresa, que levantou seu patrimônio inicial com fundos de venture capital e outras ferramentas de investimento de risco. Com tamanho uma ordem de grandeza acima de outros projetos concorrentes, a Colossal não sabe ainda se conseguirá transformar a desextinção num modelo de negócio, e por enquanto fatura em outros setores da biotecnologia, como prospecção de medicamentos.
Quanto ao que fazer com os filhotes de lobo-terrível, a empresa diz que eles estão crescendo em uma reserva secreta de 800 hectares, mas não tem planos ainda de ampliar o projeto. A ideia é monitorar a saúde dos animais e seu comportamento ao ar livre para decidir se será possível, algum dia, soltar esses e outros animais para repopular alguma floresta nativa nos EUA.
Além do lobo-terrível, a empresa mantém um laboratório na Austrália e relata estar trabalhando na possibilidade de 'desextinguir' o tigre-da-Tasmânia, um marsupial local extinto. O mamute-lanoso, o mamífero mais emblemático da última era glacial, também está no cardápio dos cientistas, bem como o dodô, pássaro natural das Ilhas Maurício que se tornouícone popular e símbolo de animal extinto.
Quando a Colossal ainda começava a fazer barulho com seus projetos, o filósofo Jay Odenbaugh, do Lewis & Clark College, de Portland (EUA), dedicou um artigo a analisar aspectos mais profundos daquilo que está em jogo, sem discutir as alegações técnicas da empresa.
"Agora nó podemos fazer um balanço dos argumentos morais a favor e contra a desextinção", escreveu, em artigo de 2023. "Essas considerações morais dizem respeito a questões de bem-estar animal, de arrogância e má alocação de recursos, e às vezes suplantam o que poderiam ser os benefícios de recriar ou ressuscitar espécies. Mas nem sempre. Assim, decisões morais sobre a desextinção frequentemente precisarão ocorrer caso a caso."