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Irrelefante

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Nada faz muito sentido. irrelefante.com.br

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Irrelefante @irrelefante.com.br · 29/09/2026
Quieto (irrelefante.com.br/notas/2026/09/28…)
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Quieto
Hoje foi um dia quieto. Eu estive quieto. Fora uma reunião de meia-hora depois do almoço, e de uma breve visita de uma amiga para buscar um pacote aqui na minha casa, eu passei o dia quieto. Não só não falei, mas eu senti o meu corpo quieto. Eu tive um punhado de semanas agitado nesse último mês. Eu me relacionei brevemente com uma pessoa que me tirou do eixo, mas que me deixou inquieto, incerto. Tudo acontecia muito rápido, e com muita força. Até que veio o silêncio e, depois dele, a paz. Quando eu vi, a pessoa foi embora e levou com ela todo o sentimento que tive por ela junto. Passei esses últimos dois dias quieto, recuperando o movimento do meu corpo, apreciando um pouco não ter que falar ou fazer nada. Existindo só dentro de mim mesmo. Acho que deu a sorte de terem feito dois dias de muita chuva aqui na cidade, porque em dias assim o Tobias também fica quieto, enroladinho na cama dele esperando a chuva passar. A gente troca olhares e carinho no dia de hoje, e ficamos quietos juntos. Nos recuperando depois de um temporal, esperando o dia raiar amanhã.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 23/09/2026
Resident Evil (irrelefante.com.br/reviews/2026/09/…)
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Resident Evil
Eu já imaginava que isso ia acontecer: eu me diverti um bocado. Zach Cregger subiu pro topo da minha lista de diretores interessantes com seu magnífico _A Hora do Mal_ , então eu estava bem empolgado pra ver ele usar seu bom humor e sua atenção para a tensão na adaptação de _Resident Evil_ pro cinema. É divertido demais. Captura muito bem duas experiências muito específicas: a primeira, de assistir alguém jogando, e você ficar pensando “não, pula ali”, “pega aquela arma”, “faz isso mais rápido”, etc.; a segunda, e talvez mais específica e especial pra mim, é que o filme traduz exatamente a _minha experiência_ jogando esses jogos de terror. Eu me cago de medo. Eu ignoro qualquer instrução que o mundo do jogo pode tentar me indicar. Eu atiro pra todo o lado na expectativa de que, eventualmente, eu vá acertar o monstro. O Bryan é exatamente como eu controlo os personagens desses jogos. Gosto muito como o filme também traduz a mecânica de jogabilidade aqui. O filme é composto por trilhas claras — a estrada, a casa, as ruas da cidade, etc. São “caminhos”, e não um jogo de mundo aberto. Isso nunca parece algo que limita a forma do filme, e sim dá a ele a propulsão necessária. A fuga do Bryan nos becos de Raccoon City, por exemplo, parece vinda direto de um jogo. Há um caminho claramente delineado pro que ele precisa pular sobre, se agachar e se esgueirar. Algumas das “dicas visuais” ele entende, outras ele ignora completamente. É um show. Eu acho que o filme tem uma barriga quando chega na cidade, mas tudo bem. Eu quero mais blockbusters assim. Rápidos e que fazem uma coisa muito, muito bem. Cregger entende como usar o humor pra desarmar o espectador e, então, dar um cagaço logo em seguida. Funciona muito bem comigo, e me aproximou muito de um personagem que faz várias escolhas erradas nas melhores das intenções. Evita que a gente sinta que ele seja um personagem burro que merece a morte, como filmes de terror piores fazem, e sim como uma pessoa carismática que tá fazendo o possível no pior dia da vida dela. O final tira toda a potência diretamente de _INSIDE_ , um jogo maravilhoso. Não esperava que ia funcionar comigo mas funcionou muito bem. É uma tragédia em _INSIDE_ , e aqui dá ao filme uma carga dramática que até então eu não tava sentindo. Se for pra continuar fazendo filmes de jogos e quadrinhos e tudo o mais, que seja assim: uma perspectiva nova e atenta, com pulso de um grande diretor interessado em nos fazer sentir algo.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 20/09/2026
Separe as bananas e maçãs das outras frutas (irrelefante.com.br/links/2026/09/20…)
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Separe as bananas e maçãs das outras frutas
Trazendo pra cá as dicas de @chadoyofficial (via Boing Boing), já que eu não tenho Instagram pra salvar: > 1. Maçãs amadurecem tudo ao redor delas. > Elas liberam um gás que pede para outras frutas amadurecerem. Em uma tigela com bananas elas amadurecem tudo em dois dias. > 2. Bananas são as piores. > Elas liberam ainda mais gás. Penduradas sozinhas elas duram bastante, em uma tigela elas levam tudo com elas. > 3. O que é bom se você quer amadurecer algo. > Um abacate em um saco de papel com uma maçã amadurece em um dia. O mesmo truque funciona com pêras e pêssegos. > 4. Batatas e alhos se estragam. > Ambos distribuem umidade e gás, e fazem o outro brotar. Deixe-os separados e em cantos diferentes e ambos vão durar por meses. > 5. Morangos, framboesas e mirtílios vão na geladeira sem limpar. > Água na pele é o que inicia o mofo. Lave enquanto come e eles duram o dobro do tempo. > 6. Cítricos ficam na geladeira, não no balcão. > No balcão eles ressecam em uma semana. Na gaveta duram um mês, e mantém o suco. > 7. Tomates nunca vão para a geladeira. > O frio mata a textura e ela não volta. Eles ficam no balcão, longe das maçãs. > 8. Um fruto ruim estraga todo o resto. > O mofo se espalha em frutos macios muito rápido. Tire o estragado assim que ver, não no dia que ele fizer amigos. >
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 20/09/2026
El Sur (irrelefante.com.br/reviews/2026/09/…)
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El Sur
Acho que acabei de ver um dos meus filmes favoritos. _El Sur_ é magnífico. Um filme com a textura das memórias tão distantes que quase parecem sonhos. _El Sur_ captura uma melancolia que me bate sempre que vejo meus pais e percebo que eu não os conheço. Pelo menos não totalmente. Eu conheço histórias da infância e da juventude deles quase que por acaso, através de relatos de outras pessoas — o primeiro grande amor do meu pai, ou quando minha mãe fugiu de casa. Eles nunca falaram dessas coisas pra mim, mas eu sei porque uma tia, ou um amigo de infância deles, deixou escapar. Tem isso em _El Sur_ , o exato momento que Estrella deixa de ser criança: quando ela percebe que seus pais escondem dela uma vida inteira antes dela, e que ela começa a esconder deles a sua própria vida particular. É lindo como Víctor Erice preenche os espaços entre essas pessoas de sombras. As vezes elas consomem todo o quadro, as vezes uma luz irrompe e revela algo a mais. Mas a sombra está sempre lá — um lembrete de tudo aquilo que não sabemos nem saberemos das pessoas que amamos e que nos amam.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 18/09/2026
Miroirs No. 3 (irrelefante.com.br/reviews/2026...)
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Miroirs No. 3
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 15/09/2026
Mundano (irrelefante.com.br/links/2026/09/14…)
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Mundano
Eu não conheço Mandy Brown nem Nevan Scott, mas achei linda a observação de Brown para a natureza da relação que tinha com Scott, que faleceu recentemente. Em seu in memoriam, ela fez essa linda observação sobre o mundano: > It sounds incredibly mundane to talk about it now, a friendship measured in video calls and commit messages, but then the word mundane comes from the Latin _mundi,_ or world. To be mundane is to belong to the world, to be _in_ the world, of it and within it. Not outside of it—not lost, the way so much technology tries to make us lose ourselves—but in the world as only the truly living can be. As we can only be with each other. > > […] > > Near the end of _The Blue Place,_ as Julia is dying, she tells Aud to “stay in the world.” Aud promises to do so, but the truth is she does not know how. It is so very hard to stay in the world, to hold on to the mundane and ordinary, those fragile human connections, amidst all the forces arrayed against us. I think it is only in the effort to learn that we come close to that knowledge; and perhaps only in the effort to _teach_ that the learning really takes hold. Estar presente, se sentir parte do mundo, é algo que eu consigo fazer cada vez mais raramente, mas sempre que eu consigo eu sinto ser um ato quase revolucionário de persistir. Que as lembranças dessa amizade sejam uma benção.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 08/09/2026
You Can See Everything (irrelefante.com.br/notas/2026/09/08…)
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You Can See Everything
Fissurado no primeiro trailer de You Can See Everything, novo documentário do Nathan Fielder sobre Elizabeth Holmes. Se Fielder realmente estiver escalando em escopo como fez entre as _Nathan for You_ e as duas temporadas de _O Ensaio_ , eu não duvido que esse filme me tire do cinema com o cérebro como um mingau, estilo _Close-up_. Registrando já a minha aposta pra esse filme na categoria de Melhor Documentário do Oscar 2027, o qual vai resultar na terceira temporada de _O Ensaio_.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 05/08/2026
Pessoas que pensam antes cortam grama melhor depois:
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Pessoas que pensam antes cortam a grama melhor...
Pessoas que pensam antes cortam a grama melhor depois A edição mais recente do The Pudding é sobre cortar grama, mas na verdade é sobre produtividade, e como o nosso cérebro é, na grande maioria das.....
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 05/08/2026
Completamente apaixonado por esse site que deixa você gerar grades de pessoas segurando as paredes. As vezes é tudo o que a gente precisa pra passar o dia. (irrelefante.com.br/post/82410912971…)
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 31/07/2026
Mystery?! (irrelefante.com.br/textos/2026/07/3…)
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Mystery?!
Hoje de noite eu tive um sonho louco. Meus sonhos costumam ser bem normais. Geralmente são só eventos do meu dia-a-dia, mas nessa última noite as coisas mudaram. Eu sonhei que eu tava vivendo em algum lugar do Canadá, e fui convidado pela Cardboard Computer (os desenvolvedores do meu jogo favorito, _Kentucky Route Zero_), para testar o novo jogo deles, que se chamava _Mystery?!_ , em Montana. Infelizmente, eu não lembro o subtítulo, eu só lembro que era longo. O jogo começa com um FMV em que dois atores estão em um prédio antigo. Parece uma antiga repartição pública ou uma fábrica. Tem muito a estética de um filme pornô softcore, orque tanto o ator quanto a atriz estão com roupas de seda e a iluminação é típica de uma produção barata do início dos anos 1990, branca e iluminando tudo. Eu não lembro direito do que eles falavam, mas eu lembro que essa introdução acaba e o jogo começa. Então, magicamente, _eu_ estava lá naquele prédio (mistério!), e o sonho todo ficou em primeira pessoa (muito _The Entertainment_!). O jogo era simples: * Nós assistíamos um vídeo numa TV velha com vários objetos. * Nós recebíamos uma cartilha com várias palavras, e precisávamos circular o nome dos objetos que víamos. * A cada rodada, mais um item era introduzido, então a gente tinha que lembrar progressivamente de mais e mais coisas. Eu lembro que uma das coisas que eu precisava lembrar era o bico de um pássaro, que eu _acho_ que é um dos marcadores para se navegar na Zero em _KRZ_. Só que as coisas iam complicando conforme o jogo progredia, eu tinha que lembrar mais e mais de coisas específicas, como “urna antiga para se colocar as cinzas da vovó”. Eu joguei algumas partidas do jogo com um cara que eu não conhecia. Eu lembro que eu ia progressivamente me apaixonando por esse jogador. Tinham outras pessoas em outras mesas ao redor. Depois da partida, nós saímos para a rua, estava anoitecendo. Era um edifício bem antigo e bem grande no meio do nada. Eu lembro que tinha um gramado gigante ao redor, e nós jogadores sentamos juntos próximos de uma árvore e da cerca e ficamos ali. Eu lembro que eu me senti feliz de conhecer outras pessoas e de fazer parte daquele grupo, e de sentir que seríamos amigos depois daquela tarde jogando _Mystery?!_. E então eu acordei. *[FMV]: Full motion video, sigla em inglês para jogos que usam cenas filmadas com atores reais
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 30/07/2026
Thimbleweed Park 2 (irrelefante.com.br/notas/2026/07/29…)
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Thimbleweed Park 2
Ótima notícia: Ron Gilbert postou no seu blog ontem que Thimbleweed Park 2 está em desenvolvimento, com lançamento previsto pro início de 2028. Eu amei o primeiro Thimbleweed Park. Eu acho que é um dos melhores jogos pra se jogar no Nintendo Switch, embora ele seja um jogo de computador de primeira (eu preciso escrever sobre minha ideia de “jogos de computador” um dia). Ele me lembrou de jogos que eu não entendia direito quando eu era pequeno, mas me sentia instigado a jogar mesmo assim. Foi muito legal de revisitar o gênero de aventura de apontar-e-clicar baseada em verbos. Acho muito interessante como, nesse último ano, as boas notícias que eu leio sobre jogos geralmente vêm de desenvolvedores fora das grandes empresas. Com o passar do tempo, mais e mais do meu tempo jogando acaba indo para jogos definitivamente menores do que da minha juventude. Eu me interesso por projetos pessoais, como _A Short Hike_ , _Lil Gator Gate_ , _Time Flies_ e _Blippo+_. Com as péssimas notícias que a indústria tem divulgado todas as semanas, e o relativo silêncio da Nintendo nesse último ano, eu me sinto bastante desinteressado nas super-produções. Meu jogo mais esperado desse ano, por exemplo, é Big Walk. Acho que com o passar do tempo isso vai acontecer mais e mais. Eu jogo pouquíssimo no meu PlayStation, e vejo ele como uma máquina de potência não utilizada. Eu acho que nunca joguei um jogo que realmente fez ele se forçar. Talvez _Grand Theft Auto 6_ vá fazer isso no fim do ano, mas eu nem sei se vou ter o tempo necessário pra jogar algo assim. Eu acho que o meu Switch 2 e o meu MacBook são o suficiente pra jogar grande parte de tudo aquilo que eu quero jogar hoje, e no futuro. Mais e mais eu penso que a tecnologia é mais interessante quando faz mais com pouco, e não muito com muito. É o que tornou _Breath of the Wild_ , com seu mundo gigante e lindo rodando no que equivale a um processador de Moto G de segunda geração, como uma espécie de mágica.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 27/07/2026
Agora (irrelefante.com.br/notas/2026/07/27…)
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Agora
Terceira noite seguida de insônia. Tô vendo que é hoje de tarde que meu corpo vai colapsar.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 23/07/2026
A Odisseia (irrelefante.com.br/reviews/2026/07/…)
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A Odisseia
Gostei mais do que de _Oppenheimer_ , que é basicamente o mesmo filme: um homem alcança a glória, mas destrói todo o mundo no processo. Meu problema é o mesmo de sempre com o Nolan, e eu acho que finalmente encontrei o cerne desse problema. Ele é o anti-Spielberg: Nolan cria imagens grandiosas, mas é incapaz de montar o espetáculo, a maravilha, a poesia nessa grandiosidade. Quer ver um contraponto? Nós mal vemos os momentos de contato imediato no _Dia D_ de Spielberg, mas isso não interessa pra ele. O que interessa é a reação da apresentadora de TV. Spielberg filma o impensável, mas dá à humanidade e toda a sua incerteza, seu medo e seu sonho a mesma escala. Ele cria o espetáculo a partir da coisa mais sutil: o rosto de uma pessoa. Tudo é pragmático nesse _A Odisseia_. Até mesmo a metáfora, o incerto, é diminuído ao seu pragmatismo. Nem as maiores montanhas, nem o oceano mais raivoso e nem a sabedoria dos deuses escapa da pátina de “objetividade” que Nolan emprega no seu filme. Ele filma no maior formato possível, mas é incapaz de enxergar além. É o filme com as melhores personagens femininas da sua filmografia, e todas as atrizes tão incríveis e fazem mais do que ele consegue oferecer a elas no texto. Dito tudo isso, perdi todas as estribeiras quando Argos reconhece Odisseu. Culpo o Homero pelo clichê.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 21/07/2026
Meu (novo) episódio favorito de Gilmore Girls (irrelefante.com.br/textos/2026/07/2…)
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Meu (novo) episódio favorito de Gilmore Girls
Por muito tempo eu achava que o episódio da maratona de dança na terceira temporada de _Gilmore Girls_ , “They Shoot Gilmores Don’t They” (3x07), fosse o meu episódio favorito, mas hoje eu revi “The Incredible Shrinking Lorelais” (4x14), e eu acho que minha opinião mudou. Esse episódio é o que tudo dá errado: Lorelai percebe que ela e a Sookie não tem mais dinheiro para continuar a obra no novo hotel, o Dragonfly, e Sookie não consegue ter o mesmo compromisso que Lorelai com o negócio que elas querem começar porque ela acabou de ter o filho; já Rory tem que se despedir de Lane, sua amiga de infância que estava dormindo com ela em Yale, ao mesmo tempo que fica no meio da briga entre duas colegas de quarto e é convidada a diminuir sua carga de aulas na faculdade por estar com notas baixas. Para fechar com chave de ouro, as duas não conseguem se falar — elas trocam mensagens de voz (os áudios de WhatsApp da década de 2000) porque nunca conseguem atender os telefonemas uma da outra. A quarta temporada de _Gilmore Girls_ talvez seja a melhor das sete. A essa altura, ela já está no terceiro ano irretocável que Amy Sherman-Palladino construiu. Depois de três anos numa mesma fórmula, com Rory no seu ensino médio sendo apresentada ao mundo dos ricos de seus avós, e Lorelai vivendo no idílio excêntrico da cidade que a abraçou quando ela fugiu da vida que Rory está conhecendo. No quarto ano, Lorelai e Rory não convivem mais com tanta frequência e estão conhecendo quem são fora do lar que construíram juntas. Lorelai, por exemplo, escolhe visitar os pais por conta própria, algo impensável duas temporadas atrás; e Rory e Paris agora são amigas, um dos grandes relacionamentos marinados em fogo baixo que _Gilmore Girls_ cria. Tudo isso explode no episódio 14, que serve como a culminação de várias pequenas tramas que são pinceladas aqui e ali nos episódios anteriores. Lorelai e Rory finalmente desincronizaram suas rotinas totalmente, a ponto de não saberem sobre o dia-a-dia uma da outra. Rory não consegue ser quem ela esperava ser na faculdade, com mais e mais cenas dela percorrendo os corredores de Yale perdida em horários e em compromissos irrelevantes, como seu estágio na cafeteria; e Lorelai não sabe se vai conseguir realizar seu sonho, algo sugerido pela ausência de cenas dela comendo comida do Al’s Pancake World e pela casa usando luzes mais escuras. E tem mais: a série também consegue avançar o desenvolvimento de personagem de Luke, que no episódio anterior levou uma surra do sobrinho, e Lane tem seu primeiro reencontro com a mãe depois de sair de casa (é um dos arcos mais magníficos da série, que culmina no episódio seguinte); já Emily começa a entrar em conflito com Richard ao perceber que ele está cada vez mais distante e desatento (e dá oportunidade para Kelly Bishop e Edward Herrmann serem maravilhosos). _Gilmore Girls_ é uma das melhores séries que eu já vi em como desdobra o drama a partir de pequenas comédias do dia-a-dia. Embora faça piada com como Paris reage à Lane saber de seu caso com o professor, ou da dinâmica das colegas de quarto de Rory, tudo isso serve para isolá-la mais na frustração de que seus planos pra faculdade parecem não estar dando certo e sua melhor amiga sendo expulsa do quarto. Com Lorelai, é o cabelo cheio de creme e embaraçado, que vira comentário afiado da Emily, mas que só vai ficando mais e mais estranho conforme as coisas vão dando errada com seu dia, até que ela desaba nos braços de Luke que, também, está passando por uma barra. Tudo isso vai se desdobrar nos episódios seguintes, mas é aqui que todas essas personagens começam a colapsar. Quando o episódio acaba, Rory e Lorelai finalmente conseguem atender o telefonema uma da outra, mas nesse ponto elas já choraram e estão exaustas e já não querem mais falar sobre os problemas pelos quais elas estão passando. _Gilmore Girls_ é tão delicada na forma como essas duas personagens vão se afastando aos poucos enquanto embarcam vidas distintas, e esse é o primeiro passo de seu afastamento. Não com uma briga, como a série vai fazer com a reaproximação entre Rory e Dean que inicia aqui, mas com o silêncio no telefone no outro lado da linha, certas de que a outra não vai entender o que está acontecendo. É de partir o coração, e é exatamente a sensibilidade que faz _Gilmore Girls_ ser uma das minhas séries favoritas.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 19/07/2026
Prometeu e Os Planetas (irrelefante.com.br/notas/2026/07/18…)
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Prometeu e Os Planetas
Hoje assisti ao programa “Prometeu e Os Planetas” na Casa da Ospa com a minha amiga Aline. Chorei horrores em “Vênus” e “Júpiter”, e a performance de “Netuno” me arrepiou de um jeito que eu achei que meu corpo não ia parar. Você pode conferir a transmissão dessa apresentação no YouTube.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 17/07/2026
Agora (irrelefante.com.br/notas/2026/07/17…)
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Agora
Durante minha caminhada de ontem, no fim da tarde, na orla.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 15/07/2026
Agora (irrelefante.com.br/notas/2026/07/14…)
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Agora
Nessas últimas semanas o Tobias tem dormido ao meu lado no quarto, e eu comecei a conversar com ele sobre o dia — o que fizemos, onde passeamos, o que eu _devia_ ter feito — até começar a ouvir o som da respiração dele pesar. Tá sendo uma boa rotina, quase que um diário. Gosto de acompanhar ele caindo no sono. É uma sensação gostosa, saber que ele tá se sentindo seguro e confortável a ponto de cair no sono enquanto escuta meu bla-bla-blá.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 12/07/2026
Uma Mulher Sob Influência (irrelefante.com.br/reviews/2026/07/…)
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Uma Mulher Sob Influência
Adoro quando acontece dessas: ver um dos meus filmes favoritos no meu cineminha favorito da cidade. Asfixiante e exaustivo, Cassavetes é implacável: tem pouco tempo para relaxar nas mais de duas horas e meia de _Uma Mulher Sob Influência_. Sempre me surpreende o quanto eu esqueço desse filme, mas eu acho que a culpa é da Gena Rowlands. Não que ela roube toda a atenção do filme, mas porque ela está trabalhando em tantos níveis aqui que, mesmo que Cassavetes esteja dirigindo à altura, a gente se perde no rosto dela. Na forma como o olhar dela foge e busca por alguma ajuda, algum conforto. Ao mesmo tempo, filmes de ator assim têm o risco gigante de parecerem uma jaula, em que uma grande atuação está presa em uma direção contida, comportada, que não quer chamar tanta atenção para não roubar o brilho da atuação central. Não aqui: Cassavetes faz a gente enxergar o colosso que é o trabalho de Rowlands, e faz sua ausência ser sentida em todo o momento. É um retrato poderoso daquilo que é mais amedrontador na humanidade: tudo aquilo que não conseguimos compreender um ao outro plenamente, por mais que a gente tente desesperadamente se expressar. Mabel precisa de ajuda, mas todos ao redor são incapazes de perceber de que ajuda, e de que carinho, ela precisa e procura. Ao mesmo tempo, ninguém está disposto a ver que Nick, também, precisa de ajuda — ou sequer que há algo de errado em como ele está reagindo a como ele esfarela a vida das pessoas ao seu redor. Que filme colossal. Muitos outros filmes depois desse tentam traduzir a incapacidade de um casal de se comunicar na totalidade que a gente gostaria em um relacionamento. Muitos outros tentam explorar a figura misteriosa de uma mulher enjaulada na vida alienante do subúrbio. Nenhum deles alcança a profundidade de Rowlands pedindo ao pai para apoiá-la, em um jogo de palavras tão bonito, e tão desesperador em como não é compreendido. Uma atuação tão cheia de grandes gestos e dos menores suspiros. Tá aí um bom objetivo de relacionamento: confiar no seu parceiro tanto quanto Cassavetes e Rowlands confiaram um ao outro pra se expor num trabalho tão visceral, e acreditar que o outro vai estar lá para ajudar — ou simplesmente prestar atenção, e enxergar com cuidado.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 11/07/2026
Encontre sentido (irrelefante.com.br/notas/2026/07/11…)
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Encontre sentido
> “Find meaning. Distinguish melancholy from sadness. Go out for a walk. It doesn’t have to be a romantic walk in the park, spring at its most spectacular moment, flowers and smells and outstanding poetical imagery smoothly transferring you into another world. It doesn’t have to be a walk during which you’ll have multiple life epiphanies and discover meanings no other brain ever managed to encounter. Do not be afraid of spending quality time by yourself. Find meaning or don’t find meaning but “steal” some time and give it freely and exclusively to your own self. Opt for privacy and solitude. That doesn’t make you antisocial or cause you to reject the rest of the world. But you need to breathe. And you need to be.” — Albert Camus em seus cadernos, 1951-1959.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 18/06/2026
As semelhanças entre sua vida e um cachorro (irrelefante.com.br/notas/2026/06/18…)
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As semelhanças entre sua vida e um cachorro
> I never intended to have this life, believe me— > It just happened. You know how dogs turn up > At a farm, and they wag but can’t explain. > > It’s good if you can accept your life—you’ll notice > Your face has become deranged trying to adjust > To it. Your face thought your life would look > > Like your bedroom mirror when you were ten. > That was a clear river touched by mountain wind. > Even your parents can’t believe how much you’ve changed. > > Sparrows in winter, if you’ve ever held one, all feathers, > Burst out of your hand with a fiery glee. > You see them later in hedges. Teachers praise you, > > But you can’t quite get back to the winter sparrow. > Your life is a dog. He’s been hungry for miles, > Doesn’t particularly like you, but gives up, and comes in. — Richard Bly, “The Resemblance Between Your Life and a Dog” (via Laura Olin)
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 15/06/2026
Em defesa dos navegadores em consoles de videogame (irrelefante.com.br/textos/2026/06/1…)
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Em defesa dos navegadores em consoles de videogame
Por alguma razão misteriosa na forma como eu tropeço em links na internet, eu me deparei com dois links que tocam no assunto ultra-específico de navegadores em consoles de videogame. O primeiro, é esse baita trabalho de pesquisa por Declan Chidlow em documentar a interface desses navegadores, passando por curiosidades como o CD-i e o Apple Pippin até o PlayStation 2 e o Wii — e então pros consoles mais recentes. Eu sempre gostei do fato do Wii e do 3DS terem navegadores. Eu nunca usei muito eles além da parte em que eles facilitam os hacks para homebrew de ambos os consoles. Porém, eu sempre achei curiosa a forma como a Nintendo e a desenvolvedora responsável por esses navegadores faziam um esforço em usar as capacidades específicas de hardware na navegação. No Wii, era o uso do sensor de movimentos pra controlar o ponteiro; no 3DS, o recurso de duas telas espalhava os controles pela tela de toque enquanto a de cima exibia o conteúdo da página. Eu me deparei com o segundo link quase que por engano. Em um artigo sobre como construir sites principalmente em HTML melhorou as métricas de visitas de um site tem um link para _outro_ artigo sobre a importância da simplicidade no desenvolvimento para a web. É nesse link que está essa pequena anedota de Terence Eden: > Há alguns anos, eu estava fazendo pesquisa de políticas públicas em um escritório de auxílio-moradia em Londres. São lugares singularmente desagradáveis. As paredes estão repletas de cartazes oferecendo serviços úteis para pessoas que fogem da violência doméstica. Os seguranças na porta demonstram uma indiferença cautelosa a quem entra. O ar é carregado de conversas tensas entre casais, abafadas pelo barulho de crianças gritando. > > No meio, tem uma jovem sentada em uma cadeira de plástico rígido. Ela está cercada por sacolas contendo seus pertences. Ela não parece estar em um bom momento. Em suas mãos, ela segura um console de videogame – um PlayStation Portable. Ela o encara intensamente, bloqueando o mundo com _Candy Crush_. > > Ou, pelo menos, era o que eu pensava. > > Passando por ela, dou uma olhada em seu console e reconheço a tela em que ela está. Ela está conectada ao Wi-Fi do prédio e navegando nas páginas do GOV.UK sobre Auxílio-Moradia. Ela não está cortando frutas; está se munindo de conhecimento. > > O navegador web do PSP é — para dizer o mínimo — [patético]. É lento, frequentemente fica sem memória e só consegue abrir 3 abas simultaneamente. > > Mas as páginas do GOV.UK são escritas em HTML simples. Elas são projetadas para serem leves e funcionarem até em navegadores ruins. Precisam funcionar. Isso é para todos. Desenvolvimento para a web pensando nessas situações sempre foi o que me guiou a desenvolver com HTML antes, scripts depois. Eu morei por muito tempo no interior, no meio do campo, sem acesso à infraestrutura de internet de boa qualidade. Existem limites do que essas conexões conseguem oferecer, e é o nosso trabalho como desenvolvedores esquecer que nossos MacBooks conectados à internet de alta velocidade podem fazer, e lembrar de tudo o que um Moto G de 2018 no interior de, sei lá, Minas Gerais, vai conseguir fazer também. _Todo o resto_ de performance a gente pode usar para melhorar uma experiência. Mas ela já tem que ser boa o suficiente pro usuário com o pior hardware possível. É um pouco do que me faz querer que o nosso _gov.br_ fosse mais pensado para essa parte da população. A infraestrutura do _gov.br_ é pensada para o melhor hardware possível — mas a parcela de quem vai acessar esses serviços usando o iPhone do ano é mínima. Tudo isso pra dizer que eu lembro de ter feito um sitezinho na aula de programação no segundo ano do ensino médio e ter testado ela usando o navegador do Wii. Foi mágico usar o Wii Remote para apertar em botões que eu mesmo desenvolvi. Até hoje essas pequenas felicidades de programação me impulsionam pra seguir em frente.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 23/05/2026
Tenham um fim de semana aconchegante (irrelefante.com.br/links/2026/05/23…)
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Tenham um fim de semana aconchegante
O tempo tá bem incerto nesse fim de semana por aqui. Não tem um raio de sol no céu, e as vezes parece que vai chover. Até cai uns pingos, mas a chuva não desce de vez. Parece bem um dia de inverno, mesmo que ele não tenha chegado ainda. Meu fim de semana passado foi muito agitado. Eu me atrapalhei com alguns conflitos no calendário e acabei combinando com vários amigos compromissos que se atropelaram. Mas deu tudo certo, todo mundo foi contemplado, mesmo que tenha sido um pouco corrido. No domingo, quando a última visita foi embora, eu simplesmente desmaiei na cama e acordei atrasado no dia seguinte. _Nesse_ fim de semana eu vou dar uma descansada. Vou fazer uma janta pra um amigo, mas fora isso eu evitei de marcar qualquer coisa. Minhas pernas ainda estão um pouco cansadas do tanto que eu caminhei durante a semana (foram mais de 50km!), então tá sendo um bom dia pra me perder um pouco em Hyrule (eu estou jogando _Tears of the Kingdom_ de novo) e tentar terminar _Metroid Prime 4_. Eu finalmente consegui configurar o HDR do Nintendo Switch 2 direito, quase um ano depois. Espero que o fim de semana seja aconchegante como o meu. Aí vão alguns dos links que colecionei essa semana. * **Wiki File Explorer:** uma forma de navegar na Wikipédia como se ela fosse um diretório no seu Windows XP. Provavelmente vai ser meu link favorito do ano. * **In Good Hands** : um textinho breve sobre quando a gente confia em alguém pra mudar um pouco o nosso modo de ver as coisas. É tão bom quando nos cercamos de pessoas que nos deixam exatamente assim — curiosas. * **How Writing Lead to Thinking (and Not the Other Way Around):** eu tinha essa suspeita e esse artigo basicamente confirma que escrever ajuda a gente a pensar. Eu ando escrevendo muito pouco, e tava dando uma olhada no quanto eu escrevia (e pensava) pro Pão, e sinto falta disso. Acho que vou retomar esse tipo de blog no futuro. Pensando como. Por hoje é isso, muito obrigado por ler.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 18/05/2026
Três coisas sobre dados (irrelefante.com.br/links/2026/05/18…)
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Três coisas sobre dados
Russel Davies escreveu um texto bem interessante sobre a “soberania dos dados” que parece ser a ruína de muitas empresas (undermanager). Alguns destaques da leitura. Na introdução ele já elenca o paradoxo que é coletar dados para descobrir o motivo dos negócios não irem bem, e’quando os dados não respondem a pergunta você acaba coletando _mais dados_ , o que te afastam ainda mais de procurar a resposta no lugar certo: > a. Data is a risk. Every bit of data has to be managed/looked after/cared for. That costs time and money. And most of it is useless. > > b. Data is distracting. Most of it is just noise. You’re gathering it because you can, just in case, because it seems valuable. Then you spend ages trying to work out what to do with it. When you should be paying attention to just a couple of bits of it and actually doing something about it. > > c. It becomes a job. Get enough data and you need data scientists. Then you’re stuck in a self-perpetuating structure that requires more data to feed the data scientists. E, sobre a distância dos dados reais das pessoas que precisam deles: > The more it gets abstracted away to other teams and other softwares the more dangerous and misleading it gets. Tem várias vezes na semana que eu me pego pensando que eu sou um incompetente no trabalho porque eu recebo dados do negócio fornecidos por outras pessoas que acham que teria alguma relevância pro meu trabalho, e eu não ver serventia nenhuma naquela informação. É muito frustrante receber informações que te dão ideia de um detalhe muito específico de uma parte da audiência e perder a visão do todo. Eu não desenvolvo pra um setor específico das pessoas que vão visitar um site. Eu desenvolvo pra todas as pessoas que possam visitar um site.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 07/05/2026
Quanto céu tem aqui fora (irrelefante.com.br/textos/2026/05/0…)
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Quanto céu tem aqui fora
Você sorri pra mim do outro lado da mesa durante o café da manhã e eu sei que eu te amo. Você está tomando seu café — uma taça gigante de capuccino que pensando agora parece ser grande demais pra ser de verdade — e me conta a história de quando seu pai te ensinou a estacionar, colocando uma moeda entre a roda do carro e o meio-fio. “Se o espaço fosse maior ou menor que aquela moeda”, você diz, “ele entrava no carro e me falava pra fazer de novo”. Eu olho pra você e sei que te amo e que vou lembrar pra sempre dessa história. Eu vou lembrar pra sempre da forma desengonçada que você pega a taça gigante de café. Ela parece maior agora? Você olha pro relógio e seu coração se parte. Você me diz que está na hora de irmos. Nós nos levantamos da mesa e vamos ao caixa. Eu insisto em pagar a conta dessa vez. Você finge se irritar, mas me beija na bochecha. A mulher do caixa me olha preocupada, vira o rosto pra você e me olha outra vez. “Se vocês se separarem, o sonho vai acabar”, ela diz baixinho. Eu não entendo. Não que eu não tenha _ouvido_ o que ela disse, mas eu não entendo o que ela quer dizer. Ela fala mais alto. “Se vocês se separarem”, e olha pra você, “o sonho vai acabar”. A gente se olha. Você franze o rosto com aquela sua falsa preocupação e pisca o olho pra mim. Eu não lembro de conferir o troco, porque eu só quero chegar perto de você pra sairmos juntos do café. Eu digo bom dia pra moça do caixa e caminhamos, abraçados, em direção à porta. A manhã está linda. É verão e as roupas são leves. Eu seguro seu rosto com as duas mãos e te beijo. Você me beija de volta, pega minhas mãos e as segura perto do rosto. Você me olha por cima dos nossos dedos entrelaçados. Você sempre encontra meus olhos, acho que foi isso que me fez te amar. “Até mais tarde”, você me diz, e nossos dedos se desentrelaçam. Você se vira e começa a se afastar. Eu me viro pro outro lado da rua e, também, me afasto. Eu sei que você deu uma olhadinha em mim — sua verdadeira despedida, sempre — enquanto nos afastamos. E aí, tudo começa. Eu demoro pra reconhecer o som que vem crescendo de longe. Eu percebo que ele é alto e me atrapalha, mas eu demoro para pôr a ideia de que ele existe na minha mente. Meu raciocínio é mais lento que meus olhos, que veem no fim da rua um helicóptero ir direto ao encontro do prédio. A explosão é alta, e as pessoas saem correndo. Umas vão em direção ao caos, e outras correm dele. Eu fico imóvel, sem conseguir entender o que eu acabei de ver. Todo mundo parece que já entendeu. Um homem sai do carro e corre em minha direção. Eu ouço outra explosão acontecendo em algum lugar, mas não consigo entender de onde. O homem grita “ei ei ei”, apontando para você. Você também está imóvel, alguns metros atrás de mim, a boca entreaberta e os olhos assustados. Você se acorda do transe feito de pavor e me olha. Seus olhos sempre me encontram, não é mesmo? O homem te chama, e ele repete. “Se vocês se separarem”, e então bem devagar, “o sonho vai acabar”. Ele te olha, ele me olha. “Vocês entenderam isso?”. Eu quase me ofendo com a sugestão da minha ignorância, mas eu não vou mentir que eu não sei se entendi. Você segura minha mão, e nos olhamos. E daí eu acho que entendemos tudo ao mesmo tempo. Eu seguro firme em você e saio correndo para longe daquele caos. Corremos, e corremos. E _corremos_. Os carros estão todos parados, muitos sem ninguém dentro. Todo mundo fugiu, ou todo mundo foi em direção às explosões que causamos? Eu sei que a gente precisa correr. Você me acompanha, eu sinto o baque dos seus pés no chão ao meu redor. Quando o fôlego acaba, e a gente chega em uma praça onde as coisas parecem estar mais calmas, eu sento em um banco e olho pra você, que ainda está de pé, respirando fundo. Eu nunca perguntei sobre seu histórico de fumante, mas essa dúvida me passa pela cabeça nesse instante. “De quem é o sonho?”, você pergunta primeiro. Por um milésimo de segundo eu fico com raiva — _eu_ queria ter perguntado isso, porque eu achei que você sabia a resposta. Agora o peso dessa resposta tá sobre mim, e eu não sei o que dizer. Eu olho ao redor, e não vejo ninguém. “Eu não sei”, eu digo. “Eu não reconheço esse lugar, e você?” Você caminha em círculos, olhando os arredores. “Eu não sei. Eu tenho a impressão de que conheço, mas eu não sei onde a gente tá. Faz sentido?” Nada faz sentido, a raiva cresce um pouquinho. “Como que a gente vai saber quem tá sonhando?” eu pergunto. Você se belisca. Eu me belisco. Parecia fácil demais. É óbvio que não funciona. “Onde a gente tá?”. É estranho. Instantes atrás eu achava que sabia onde eu tinha que ir. “Agora parece que eu não reconheço onde a gente tá”, eu digo. “Eu achava que sabia até pouco tempo.” Você percebe a mesma coisa. Me olha com sua cara confusa — que coisa mais fofa. “Onde é que eu tinha que ir?” Parece que a gente está nessa praça por muito tempo quando você senta do meu lado e me fala as palavras mais bonitas do mundo. “Acho que a gente pode fazer o que a gente quiser, não acha?”. Eu vejo seu olhar se abrindo pra um sorriso quando eu levanto o rosto e te encaro. “É verdade”. Eu seguro sua mão e te levanto. Você tenta se lembrar onde você mora. Ou onde eu moro. Ou se a gente mora junto. “Eu só lembro que quando eu deito no sofá no fim da tarde, a luz do sol entra pela janela da sala e ilumina os meus pés”, você me explica. Eu não acho que eu sabia desse detalhe, e meu coração se parte um pouco. Será que a gente não mora junto, então? Se eu tiver dormindo, será que eu te conheço? Nós estamos passando por um subúrbio cheio de ruas tortas e casas espaçosas, com jardins abertos. “Minha mãe mora aqui”, eu digo de repente, como se isso fosse verdade. A casa dela está ali, logo em frente. Eu bato na porta, mas ninguém atende. A porta está destrancada, então eu entro. Você está logo atrás de mim. Não existem fotos minhas ou da minha mãe pela casa. Essa poderia ser a casa de qualquer um. Mas eu sei que é a casa da minha mãe — eu sei exatamente onde está o banheiro e te explico, porque você precisa usá-lo, que a descarga é demorada. Eu te peço pra não trancar a porta. Quando você me pede um motivo, eu respondo que eu tenho medo que você desapareça. Eu ouço você puxar a descarga e a lavar as mãos. Um alívio percorre meu corpo quando eu vejo você abrir a porta. Nós esperamos minha mãe chegar, mas ela não chega. O dia começa a escurecer quando a gente decide sair dali. Você me dá sua mão e caminhamos de mãos dadas pela rua onde nós crescemos e eu sinto que foi assim que a gente se apaixonou. Nós estamos na beira da interestadual. Muitos carros ainda andam pra lá e pra cá. O sol recém se pôs quando a gente chega no estacionamento em que você se apaixonou por mim. Não tem carros ali, mas a gente ouve os que andam ao longe. Nós descemos o barranco onde a grama ainda é alta e eu me sento onde sempre me sentei quando ia ali com você. Os fachos de luz dos carros pintam seu rosto por instantes. “Eu sempre gostei de quanto céu tem aqui fora”, você diz, olhando pra cima. É verdade. O céu vai até muito longe. Não tem nenhum prédio a vista. A estrada vai de um horizonte ao outro. O céu é gigante nesse lugar. O azul ainda não é preto, mas o sol não tá mais no horizonte. É a última luz que a gente vai ver. Você não me olha quando você fala nossos medos. “Eu não quero acordar e ver que você não tá comigo”. “Eu também não”. “Eu tô com medo de acordar e perceber que a gente nem se conhece”. Eu penso. “Se a gente não se conhece, onde a gente se viu?” Você me olha. Até no escuro, você me encontra. “No trem?” “No banco?” Você sorri. “Ou quem sabe no café?” “Eu acho que eu teria sorrido pra você no café” “Você sorriu” “Vou lembrar de sorrir de novo, então”. Eu acho que a gente chegou no fim do mundo caminhando. A gente olha ao redor, e tem um posto de gasolina fechado. Não tem movimento nenhum, mas eu escuto o som do mar. Você também escuta? “Sim”, você me responde. Mas eu não fiz essa pergunta. Eu te olho e você sorri. Com uma barra de ferro você quebra a porta de vidro da loja de conveniência. Eu espero pelo pior, mas ele não vem. Um flash da luz de emergência pisca e ilumina as prateleiras. “Eu tô com fome”, você se justifica. A gente entra na loja vazia e você procura por algo muito específico nas prateleiras de salgadinho. Eu vou em direção às geladeiras, e ouço o zumbido delas. Meu coração bate forte. Eu sei o que está acontecendo. Os rótulos das bebidas estão todos em idiomas que eu não sei identificar. Eu pisco e tento decifrar as linhas das palavras do que obviamente é uma Coca-Cola, mas nada na lata é compreensível pra mim. Eu percebo que meu coração desacelerou, e ao perceber isso o desespero bate. A loja de conveniência não é mais a mesma. Você me dá um beijo e eu me viro pra te ver, mas você não está mais aqui. Minha respiração começa a ficar curta conforme meu medo vai aumentando. Eu lembro do que você me disse uma vez. “Pra lembrar que está sonhando, lembre de olhar para as palmas das suas mãos”. É a última vez que eu ouço sua voz. Eu tento respirar fundo. O coração vai sair pela boca se eu não fizer isso. Eu olho para as palmas das minhas mãos. Eu levanto o rosto e consigo perceber o sonho derretendo ao meu redor. As lojas ao redor começam a desmoronar e os carrinhos de supermercado começam a derreter. Eu volto a perder o fôlego. Eu sinto a textura do lençol da minha cama, que eu escolhi a dedo. O peso da minha cabeça no travesseiro. Eu ainda sinto que o coração vai explodir e o pulmão não vai aguentar. Por um breve segundo, eu abro os olhos e esqueço onde está a porta do quarto. Eu mudei a posição da cama essa noite, por acaso? No canto do meu olho eu enxergo a silhueta coberta pelo lençol. Eu a observo com cuidado, com medo do coração se partir. Eu me recuso a puxar a coberta e descobrir a verdade.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 30/04/2026
Links pra essa quinta-feira, 30 de abril (irrelefante.com.br/links/2026/04/30…)
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Links pra essa quinta-feira, 30 de abril
Aqui vão alguns links bacanas pra explorar no feriado: * **Linha do tempo da Artemis II em fotos:** criada por Hank Green graças à informação pública na web. O Flickr preserva os dados EXIF das fotos que a NASA publica em suas contas por lá; e a própria NASA tem uma API pública para a posição da Orion em qualquer momento no intervalo de tempo da missão. Tirei um papel de parede daqui. * **Cursor Camp:** o meu tipo de MMO. Um parquinho para você dar um tempo com outros cursores ao redor do mundo. É surpreendente a quantidade de atividades bacanas que tem por lá, eu até fiz um gol numa partida de futebol e caí de um tobogã. * **Quem são os amigos inesperados em sua vida?:** belíssimo texto sobre uma amizade que surgiu através da rotina e do convívio com um vizinho. Muitas das minhas amizades pós-faculdade vieram assim. O poder que um “oi, bom dia” todo dia cria através do tempo é mágico. * **rip.so:** um “obituário para coisas da internet”. MSN, Orkut, Google Reader… todos tem um textinho que celebrou o que essas coisas trouxeram, e o que o fim delas levou da internet. GeoCities, meu tão adorado, é um deles.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 23/04/2026
Betty Blue (irrelefante.com.br/reviews/2026/04/…)
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Betty Blue
É a primeira vez que eu assisto a versão de cinema de _Betty Blue_. Eu sempre assisti a versão do diretor, e tinha um preconceito com a versão de cinema porque o que eu mais gosto nesse filme é a forma como ele espaça o tempo — parece muito que a gente acompanha Betty e Zorg nos meses (ou anos?) em que eles estão juntos. É muito emocionante, no final, quando Zorg encontra a foto que Betty tirou deles no início do filme. Sempre me pega muito. Bem, erro meu. Eu acho que a versão original do cinema é ainda mais eficaz. Essa versão de _Betty Blue_ ainda tem muitas esquinas pra se perder, momentos da vida a dois de Betty e Zorg que o filme passa magicamente tempo demais, sem que isso seja um problema. Eles tornam a vida do casal mais específica e mais tangível do outro lado da tela. Quase que dá pra sentir o calor do verão naquelas cabanas, e o vento frio do inverno na casa em que o relacionamento deles acaba de forma trágica. Eu tenho a impressão que a versão do diretor tem mais dessas “etapas” do relacionamento deles, mas eu não consigo me lembrar exatamente de quais (o que eu acho que é um ponto a favor desse corte original), e se perde na repetição. A versão estendida, inclusive, parece descaracterizar mais Betty, porque tudo o que o corte adiciona é em relação a Zorg. A dinâmica entre os dois é bem melhor balanceada aqui, o que realça mais as frustrações de Betty sobre o comportamento do namorado, e também toda a força da natureza que ela têm para empurrar a vida que eles têm para outros caminhos, possivelmente melhores. É bem mais engraçado, também. Eu lembro que o corte estendido é ainda mais triste — Zorg é mais pau no cu com mais tempo de tela —, já aqui o filme ainda é bem humorado até o último ato, em que a tragédia assola os personagens. De resto, esse filme sempre foi muito lindo. É um filme dessas gerações perdidas que aparecem de tempos em tempos, com horizontes gigantes e vazios de esperança. A melancolia parece ecoar nesse horizonte, e quando acaba realmente parece que uma vida inteira passou voando, como a própria vida de Betty. Lindo demais.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 15/04/2026
A Cronologia da Água (irrelefante.com.br/reviews/2026/04/…)
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A Cronologia da Água
Assisti na Casa de Cultura semana passada, e o filme ficou cozinhando em fogo baixo em mim pela semana seguinte. Kirsten Stewart dirige bem: ela tem uma montagem de impacto que me pareceu muito com o Steve McQueen no início da carreira, e ela bebe muito da textura da memória que Charlotte Wells empregou em _Aftersun_. Mas o roteiro de _A Cronologia da Água_ não ajuda. Um dos grandes desafios de filmes “sobre trauma” é balancear a ideia de que o trauma não define a pessoa que sobreviveu ele, ao mesmo tempo que ele é uma prisão que distorce o horizonte e o destino dessa pessoa enquanto ela navega por esse trauma. Aqui, a protagonista é completamente definida pelo abuso que passou na infância, e a estrutura do filme não ajuda a amenizar essa impressão. Pra um filme de memórias, _A Cronologia da Água_ é completamente linear, então o abuso é concentrado em seus momentos iniciais, na infância da protagonista, e gera uma maré de inseguranças pelo filme todo. Em um filme de memória, porém, as relações que criamos entre as cenas são muito mais de tato: um detalhe, que lembra outro, que lembra ainda mais um. Uma estrutura não linear evitaria essa impressão de que um evento na infância influenciou todo o comportamento da personagem, fazendo ele mais assombrar ela do que justificar seu comportamento. De resto, _A Cronologia da Água_ é muito bem dirigido. A fotografia me lembrou muito Cassavetes — filmando essas atrizes em closes tão íntimos que parece querer mergulhar na pele delas. O filme nunca encontra uma sincronia entre atuação e câmera como Cassavetes conseguia, mas só pelo fato de tentar, e chegar perto, já é crédito pra Stewart. Eu acho que ela vai fazer algum filme incrível no futuro, tem muita migalha boa por aqui.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 14/04/2026
Pai Mãe Irmã Irmão (irrelefante.com.br/reviews/2026/04/…)
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Pai Mãe Irmã Irmão
Saí da sessão já falando pro Erê que esse é o meu tipo de filme: uma tríade de pequenas histórias em que suas motivações e conclusões são tão ambíguas que elas podem não existir. Nada parece acontecer, mas Jarmusch observa tudo: os silêncios, os pequenos gestos, a forma como os personagens se movimentam pela cena. Tudo o que é dito, tudo o que não é dito e tudo o que fica pelo caminho. Jarmusch usa muito bem a estrutura de três histórias que não se conectam, mas rimam. Essas rimas mais pontuam outros detalhes que parecem aproximar essas histórias: a distância que existe entre esses pais e filhos que parece intransponível, e um silêncio que é cômico, até ficar melancólico. E embora o filme todo seja engraçado, essa melancolia vai tomando conta dos personagens conforme as histórias progridem e a gente vê a distância entre essas pessoas, que se amam, só aumentar. A segunda história, _Mãe_ , é a minha favorita. Ajuda que tem três atrizes fantásticas em um jogo de comportamentos preciso. É um ótimo lembrete da força monumental da Cate Blanchett, que em uma cena de alguns segundos sozinha dentro de um banheiro transmite toda a tristeza de uma vida inteira de sua personagem para o espectador.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 04/04/2026
Agora (irrelefante.com.br/notas/2026/04/04…)
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Agora
Eu tô sentado no pátio dos meus pais, numa cadeira de praia. Eu sinto a grama entre os dedos do meu pé. O dia tá quente, mas aqui sempre tem uma brisa. Tá num daqueles dias raros de silêncio. Embora meus pais morem no interior, sempre tem algo _acontecendo_ ao redor da casa deles. Ou os cachorros estão resolvendo um problema político entre eles e os cachorros do outro lado da cerca; ou tem alguém aproveitando o fim de semana pra cortar a grama; ou é dia de churrasco em um dos vizinhos, e todo o mundo precisa ouvir a música que vai servir como trilha-sonora do almoço em família. Hoje é um silêncio diferente. A casa tá quieta. Eu e meus pais voltamos há algumas horas do funeral do meu tio. Eles dormem, cada um em um canto da casa. Meus pais não gostam de mostrar que estão cansados um para o outro, então eles cochilam quase que escondidos um do outro. Eu decidi vir pra rua. Pisar um pouco na grama. Eu gosto de sentar aqui nesse canto do pátio. É ao lado da árvore sob a qual a Vivi foi enterrada. Hoje é só mais um canto — a grama já cresceu, a árvore tá linda. Ouvi minha mãe acordar agora. Eu sei que isso aconteceu porque a Zinha, uma das cadelas aqui da casa deles, também acordou. A Zinha acompanha minha mãe pela casa toda. A gente reclama desses comportamentos deles até o momento em que eles não podem mais nos seguir. Daí a gente sente falta. A Mel veio me fazer companhia. Vou ter que parar de escrever, porque a Mel exige colo e ela não liga se o computador vai atrapalhar ela. Melhor botar ele pra lá. Era pra chover hoje. Ainda bem que não choveu, tá muito bom de colocar os dedos do pé na grama e sentir ela abraçar meus pés.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 27/03/2026
Herança Nuclear (irrelefante.com.br/reviews/2026/03/…)
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Herança Nuclear
Me lembrou de dois filmes, tão bons quanto. O primeiro foi _Stalker_ , um outro filme que vê na “Era Atômica” o fim da humanidade. Ou melhor: como a bomba atômica tirou da humanidade a capacidade de sonhar, da possibilidade de um mundo melhor. Em _Stalker_ , os intelectuais são engolidos pela própria desilusão, não conseguindo entender como chegamos a esse ponto de autodestruição. Em _Herança Nuclear_ , o futuro é a primeira coisa que desaparece: os bebês morrem antes, e depois as crianças. O outro foi _Cemitério dos Vagalumes_. Ambos são retratos dilacerantes do esfarelamento de quem somos. A mãe enrolando o filho mais jovem num cobertor, e enterrando-o no quintal, é de uma crueza que eu não esperava — como eu não esperava no filme de Takahata, em que um irmão precisa cremar o outro. O início desse filme é de um assombro. A janela aberta, com a brisa movendo as cortinas. A mesma brisa que alimenta uma manhã normal vai ser a que vai trazer a contaminação à família. Lynne Littman filma que é um colosso: a dinâmica familiar se assenta já no início, e é a base que estrutura todo o filme. Como cada detalhe dessa dinâmica muda conforme a comida vai ficando escassa e as pessoas vão desaparecendo — literal e metaforicamente. A vida (mesmo imperfeita) da família ganha uma preciosidade tão bonita quando a gente acompanha, passo a passo, ela se dissolver. Tá aí um filme que vai me assombrar.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 27/03/2026
Filmes que me fazem me sentir em casa (irrelefante.com.br/textos/2026/03/2…)
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Filmes que me fazem me sentir em casa
Eu sou uma pessoa muito medrosa. Tenho medo de sentir dor, e de me sentir sozinho. Coisas completamente normais, e esperadas, de se sentir na experiência humana. Minha casa, nesse tempo que vivo aqui, se tornou um templo pra mim — as coisas mudam lá fora, mas aqui o que muda geralmente só muda de lugar. Mas uma mudança gigante abateu minha casa dessa vez, e me fez questionar ela todinha. Muita coisa mudou em pouco tempo por aqui. Eu e meu namorado terminamos depois de quatro anos juntos e, com isso, várias mudanças pequenas aconteceram ao redor dessa mudança grande. A rotina, os trajetos pra casa, as combinações, e até mesmo os sentimentos um pelo outro. A gente não brigou, nem nada, e ainda assim muita coisa foi de um lugar pra outro. Rituais que antes pareciam sagrados simplesmente desapareceram. Soluções pra problemas antigos deixaram de fazer sentido. Problemas que antes eram nossos passaram a ser só meus, ou só dele. Dúvidas não foram respondidas, e mesmo assim deixaram de existir; enquanto certezas que existiam voltaram a sumir. Espaços na minha casa ficaram vazios, e depois eu precisei ocupá-los com minhas próprias coisas. Casa é uma coisa muito importante pra mim. Pela maior parte da minha infância e juventude, eu não me “sentia em casa” na casa dos meus pais. Eu só fui realmente me sentir em casa quando trouxe um colchão, um abajur e uma geladeira pro apartamento que eu comprei no lugar que eu sempre gostei muito. Daí sim eu comecei a me sentir em casa. Montando, decorando, arrumando ela. Conhecendo sua dinâmica, o movimento de seus corredores. O horário que ela desperta e o horário que ela dorme. Se sentir em casa é uma experiência extra-humana interessante. Minha casa é uma diagramação da minha própria mente. É a representação de pedra e tijolo e madeira e concreto do meu eu, e dos meus limites. Quando uma mudança abalou minha mente, minha casa parecia ter sentido. Seu silêncio mudou — antes, opressor; agora, acolhedor. Depois de todos esses anos sendo a casa de um casal, ela voltou a ser a minha casa. E eu lembrei de olhar pros vincos na parede que antes eu prestava atenção, pro modo como o sol bate de tarde na parede oposta, iluminando as fotos na parede. Esses filmes tem uma experiência extra-humana parecida. Alguns retratam rotinas em si, outros retratam suas quebras. Mas são filmes em que pessoas experimentam justamente essa sensação de sua existência exalar o próprio corpo — e a sorte que eles tem, de ter um lugar, ou alguém, pra acolhê-los em um lar, ou um abraço. * * * 1. **Daguerreótipos** (Agnès Varda, 1975) O filme que me fez pensar nessa lista. Agnès Varda filmou Daguerreótipos enquanto cuidava do seu filho recém-nascido, não podendo se afastar muito de casa. O filme se limita ao comprimento do cabo de energia que ela usava para alimentar o equipamento de filmagem, o que consiste na distância da sua quadra. É ali que ela documenta a vida de seus vizinhos comerciantes: o alfaiate, os cabeleireiros, o instrutor de condução, os açougueiros, os padeiros; e uma vizinha que olha para a janela da sua loja de botões com uma ânsia de ir embora. Eu acho que nenhum outro filme enxerga com tanta delicadeza a dinâmica da rotina de uma vizinhança como *Daguerreótipos*. Varda observa as rotinas de seus vizinhos, e também toda a humanidade que existe entre eles: os tiques, as memórias, os sonhos, e as coisas que preenchem suas paredes. É um filme que me faz pensar nos meus próprios vizinhos, e como eles não me deixam me sentir sozinho — e como é bom retribuir esse favor. 2. **Meu Amigo Totoro** (Hayao Myazaki, 1988) Revi esse filme umas duas ou três vezes com meu sobrinho na semana em que meu relacionamento acabou. Caetano se apaixonou pelos pequenos detalhes que o filme não se preocupa muito em explicar — em especial, os pequenos bichinhos de poeira. Eu me lembro que o que me chamava tanto a atenção quando eu era pequeno era o som que os pés da Satsuki e da Mei fazem no chão da casa assim que elas entram e começam a correr pelos seus cômodos, e como elas descobrem as janelas e os corredores — e o sótão. Tem muito conforto pra se encontrar na casa na beira do bosque, mas antes ela precisa de uma faxina e de uma arrumação. Mesmo assim, o conforto maior é nos abraços que os personagens trocam uns com os outros ao redor dessa casa. Seja com o pai, quando ele chega atrasado do trabalho, com o próprio Totoro, que alça voo pela noite, ou entre as próprias irmãs, que se reencontram depois de um dia muito longo. 3. **Memórias de Ontem** (Isao Takahata, 1991) _Memórias de Ontem_ é um filme em que a protagonista só encontra um lar muitos anos depois da infância. Talvez seja (e provavelmente é) projeção minha, mas o incômodo indescritível de Taeko na infância seja, justamente, a sensação de não se sentir em casa na casa em que cresce. É um sentimento involuntário e inexplicável — não existe o parâmetro do que é um lar nessa idade para sabermos que é isso que está errado —, mas quando Taeko vai para o campo, décadas depois, e finalmente entende o que é se sentir em harmonia com as pessoas ao seu redor, e com o espaço que ocupa, que o seu incômodo de antes ganha forma, e vira memória. (Eu, também, vou largar tudo um dia e me mudar para uma fazenda japonesa. Lá sim é o meu lar.) 4. **Amantes** (John Cassavetes, 1984) Para não dizer que só tenho exemplos bons nessa lista. Em _Amantes_ tanto a casa, quanto o relacionamento entre os irmãos, é uma prisão que os sufoca e os consome. Mesmo assim, é um retrato (dilacerante) do conforto que só duas pessoas que se conhecem intimamente conseguem se dar enquanto são incapazes de sair de suas próprias prisões mentais. Bob e Susan se amam, querem o bem um para o outro e lutam para isso — mas são incapazes de estender essa cortesia para si mesmos. Um retrato do pior tipo de vazio — aquele que sentimos dentro da nossa própria alma. 5. **Certas Mulheres** (Kelly Reichardt, 2016) Três histórias de três mulheres seguindo suas próprias vidas. A rotina que Reichardt filma aqui me conforta — essas mulheres têm vidas pra viver, compromissos a cumprir. E Reichardt enxerga tanta vida nesses breves momentos em que acompanha elas. Na textura do sofá em que Laura cai no sono com seu cachorro; no frio do início da manhã que Gina sente ao sair da barraca; no pequeno aconchego que a rancheira de Lily Gladstone tem ao dirigir noite adentro para o centro da cidade e ver alguém que a fez existir além do próprio corpo. Quando eu vi esse filme pela primeira vez, em 2017, [eu escrevi][kelly]: > Tem esse sentimento estranho, que eu acho que é de quem vive em cidade pequena, de uma hora tu olhar ao teu redor e não conseguir perceber onde acaba tua pele e começa o ar. É o sentimento mais estranho do mundo, mas é ao mesmo tempo acolhedor. É estranho de explicar. Isso é se sentir em casa. 6. **Onde Vivem Os Monstros** (Spike Jonze, 2009) Dá pra falar sobre a jornada interior que Max está passando nesse filme com seus próprios monstros, tentando criar uma “fortaleza” para viver. Mas também dá pra falar da cena final, em que a mãe adormece enquanto vê Max, todo sujo e molhado, comendo ao som do “hmm–hmm–hmm” da Karen O em *Food Is Still Hot*. Ela finalmente está se sentindo segura, e bem, em sua própria casa. Ele sorri. 7. **Lovers Rock** (Steve McQueen, 2020) Grace foge de casa de noite para atravessar a cidade e ir em uma festa na casa de Cynthia, que está de aniversário. O que acontece dentro daquela casa, que sua tanto quanto os corpos que dançam dentro dela, é uma das representações mais lindas de comunhão que eu já vi. *Lovers Rock* é um filme impossível. É impossível colocar em um filme sentimentos tão breves, tão específicos, quanto os que McQueen consegue imprimir aqui. Tem paixão, tem carinho, tem angústia e tem libertação. A opressão está, literalmente, do outro lado da porta. Mas a casa de Cynthia, durante uma noite que seja, é um santuário de música, de corpos que se mexem, de gente que quer ser feliz e que quer fazer os outros serem felizes juntos. É a estrutura de um lar. 8. **Todos Nós Desconhecidos** (Andrew Haigh, 2023) Uma das partes mais essenciais, e mais difíceis, desde que comecei a morar na minha casa, foi enfrentar a minha própria solidão. Entrar em paz com ela. Eu sei me sentir sozinho mesmo com pessoas ao meu redor, mas há algo na forma como a casa se silencia no início da noite que, por muito tempo, foi desesperador pra mim. Hoje, eu sinto que estou em harmonia com essa solidão — solitude, até —, mas foi uma viagem difícil. Em *Todos Nós Desconhecidos*, essa viagem é dilacerante. Enfrentar a si mesmo é um dos maiores obstáculos. A existência é, essencialmente, solitária, mas é tão bonito quando ela é pontuada por afeto, por amor. É tão bonito ver um filme que enxerga o espaço delicado e precioso que existe entre suas pessoas e todo o infinito de seus íntimos. 9. **Pequena Mamãe** (Céline Sciamma, 2021) Por um momento, na primeira vez que eu assisti essa fábula belíssima de Céline Sciamma, eu achei que ela ia terminar com a família decidindo ficar na casa da avó, que está sendo esvaziada agora que ela morreu. Isso ia desfazer toda a beleza delicada que o filme construiu até ali. Mas Sciamma é uma diretora, e roteirista, no auge de seu talento, e não ia cair na armadilha de tentar fechar uma história assim. A casa vira passado, mas ela foi um presente importante na vida de mãe e filha. Tem algo tão bonito na forma que Sciamma filma a casa, e como ela vai deixando de ser uma — as paredes vão se esvaziando, os barulhos vão mudando. Ela vai ficando quieta, como se despedisse da família que ela ajudou a construir.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 21/03/2026
Daguerreótipos (irrelefante.com.br/reviews/2026/03/…)
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Daguerreótipos
É a segunda vez que revejo _Daguerreótipos_ no cinema. A primeira vez foi na Cinemateca Capitólio. Dessa, foi na Cinemateca Paulo Amorim — meu cinema favorito da cidade, que fica pertinho aqui de casa. A sessão não tinha tanta gente, mas todo mundo parecia apaixonado pelos sujeitos que Varda observava. Eu experimentei ir pra Cinemateca sem o celular, porque eu já sabia a experiência que o filme ia provocar em mim, e foi certeiro. Foi muito bom poder ir e voltar da CCMQ tendo que olhar pros arredores, considerar as pessoas que estão junto, sem poder recorrer aos problemas de longe pra me distrair. Eu percebi o quanto eu me sinto em casa onde eu moro hoje — como me sinto protegido por acenar pro Itamar, o dono do bar ao lado, toda noite ao voltar pra casa. Como eu me sinto próximo das pessoas que me ajudam a viver minha rotina, como as mulheres da lavanderia; a bilheteira da CCMQ; o dono do café que fica do lado da entrada da sala; a dona da vendinha que tem aqui perto de casa. _Daguerreótipos_ me lembra que todo o mundo é uma pessoa inteira, com seus próprios sonhos, suas próprias rotinas e suas próprias memórias. Ele me lembra também que, quando olhamos ao redor e vemos as rotinas das quais a gente também faz parte, o mundo fica mais interessante, fica mais bonito, e fica menos difícil de viver, e de conviver. Logo mais eu faço todo o trajeto de novo — pego a Duque, desço a General Câmara e sigo pela Andradas. Vou rever os rostos dos meus vizinhos e as fachadas das suas casas e dos seus negócios. Vou dar um alô pro Itamar enquanto abro o portão de casa, e ele vai saber que eu cheguei bem.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 06/03/2026
Encanamento (irrelefante.com.br/notas/2026/03/05…)
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Encanamento
Tava lendo esse artigo no Unsung sobre a estrutura de URLs do Flickr, e essa continuação com links sobre “design de URLs”. Eu acho muito bonita a forma com que o Flickr, o Last.FM e o Letterboxd trabalham suas URLs. Eu gosto de digitar os endereços dos sites que eu visito — foi assim que eu aprendi a navegar na internet —, e esses sites permitem que a gente descubra as coisas mais bacanas misturando e explorando suas URLs. O que acontece se eu trocar uma geotag no Flickr, ou misturar os gêneros no Last.FM, ou até mesmo filtrar os filmes que meu amigo assistiu por país? Eu posso fazer toda essa descoberta só observando e trocando caminhos. Enquanto eu tava redesenhando o meu site eu tava pensando nessa estrutura de URLs, e como eu queria possibilitar esse tipo de descoberta. Com o tempo, eu espero que esse site vire uma verdadeira “floresta” em que eu possa me perder em tags e links por aí. Pra isso, eu preciso reorganizar essas tags, criar um jardim, etc. Mas uma dessas tarefas foi pensar em uma estrutura de URLs, e tendo lido recentemente o texto no _Unsung_ eu me peguei reestruturando as URLs do site pra começar a possibilitar esse tipo de descoberta. Por regra geral, os posts agora estão organizados assim: /categoria/ano/mês/dia/nome-do-post/ As tags são fáceis: /tags/nome-da-tag/ Uma hora eu quero fazer o `/tags/` ser um mapa gráfico das relações entre as tags aqui do site. Se você acessa uma página de categoria (ex. `/notas/`), você vê o arquivo daquela categoria. Anos, meses e dias também podem ser misturados para navegar por arquivos. Pra acessar os posts de dezembro, você pode navegar pra `irrelefante.com.br/2025/12/`, e assim por diante. Eu gosto como fazer esses esquemas de URL, integrar com outros serviços e ver se tudo funciona de uma ponta à outra é como mexer no encanamento do site. E meu site é como minha casa. Até mexer no encanamento e saber que tá tudo bem é uma alegria.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 12/02/2026
Agora (irrelefante.com.br/notas/2026/02/12…)
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Agora
Eu tô passando um tempo maior do que eu deveria organizando os favoritos do meu navegador…
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 10/02/2026
Notas de diretores aos projecionistas (irrelefante.com.br/notas/2026/02/09…)
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Notas de diretores aos projecionistas
Gosto muito dessa arte perdida de notas de diretores para os projecionistas que cuidam da exibição dos filmes nas salas de cinema. Alguns diretores enviavam notas aos projecionistas com observações a serem tomadas, como indicadores de trocas do rolo do filme, configurações para o sistema de som e até mesmo pequenos pedidos para corrigir momentos do filme. É uma observação dos diretores para as pessoas responsáveis por exibirem os filmes para o público. Pelo menos aqui na minha cidade, os únicos cinemas que projetam os filmes com um mínimo de cuidado são as cinematecas que ficam no centro da cidade. Os cinemas de shopping, todos digitais, só colocam o DCP pra rodar e esquecem. Uma vez eu tive que sair da sessão e pedir pro pessoal desligar a luz. Enfim, essas são as instruções de Terrence Malick para a projeção de _A Árvore da Vida_ , de 2011: Eu gosto como o Stanley Kubrick instrui os projecionistas para o épico _Barry Lyndon_ , e todas as suas especificidades: Agora, sobre _Cidade dos Sonhos_ , quando eu vi ele o cinema ano passado eu achei que o projecionista tinha errado o volume do filme, que estava estourando. Bem, na verdade ele tava só respeitando as instruções do David Lynch: Via APHELIS, um link que tava há mais de ano na minha lista de leitura.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 09/02/2026
Peanuts (irrelefante.com.br/notas/2026/02/09…)
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Peanuts
_Charles M. Schulz_
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 05/02/2026
Peanuts (irrelefante.com.br/notas/2026/02/05…)
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Peanuts
_Charles M. Schulz, 25 de janeiro de 1983._
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 04/02/2026
Agora (irrelefante.com.br/notas/2026/02/04…)
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Agora
Uma coisa que eu sinto muita falta nos meus dias com a Vivi é a sensação de que ela adorava estar pertinho de mim. Quando eu ficava trabalhando no escritório, a Vivi gostava de ficar deitada em algum lugar perto dos meus pés — de vez em quando ela até se apoiava neles, e eu tinha que ficar com o pé parado, dobrado, pra não atrapalhar o sonho dela. Quando eu saía pra pegar uma água ou um café, ela ia atrás, e depois voltava comigo. De noite, ela ficava comigo enquanto eu assistia um filme. Ela me acompanhava pelo pátio enquanto eu caminhava depois do trabalho. Ela tava sempre por perto. Tava pensando nisso agora há pouco enquanto eu estava na cozinha e o Tobias ficava deitado no sofá. Não tô comparando o afeto de um cachorro pelo outro, mas mais um comportamento. Tobias precisa saber onde eu estou — ele levanta a cabeça quando vou de um lugar para o outro — mas ele não precisa estar perto de mim o tempo todo. São companhias diferentes. As vezes eu sinto uma saudade imensa da companhia da Vivi, mas não é justo eu ficar cobrando do Tobias. Ele é diferente.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 30/01/2026
A sorte de um adeus ser difícil (irrelefante.com.br/notas/2026/01/30…)
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A sorte de um adeus ser difícil
> How lucky I am to have something that makes saying goodbye so hard. — A.A. Milne, The Complete Tales of Winnie-the-Pooh
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 28/01/2026
Comunidades fortes e pessoas agindo com alegria (irrelefante.com.br/notas/2026/01/28…)
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Comunidades fortes e pessoas agindo com alegria
Via swissmiss: > Authoritarians cannot rise if there are strong communities and people are acting with joy. That is, you need despair and anger in order for an authoritarian to rise. Whatever those things are that you bring to the community, do them and do them with joy, and don’t stop doing the things you love because you’re scared, because that actually is a form of resistance. — Heather Cox Richardson.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 23/01/2026
Agora (irrelefante.com.br/notas/2026/01/23…)
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Agora
Tá fazendo uns dias de verão bem da minha infância por aqui nessa última semana. Dias de solaço, mas com uma temperatura gostosa: entre os 23 e os 28°C. Hoje é sexta feita e eu ganhei o dia de folga (o trabalho anda intenso, pra dizer o mínimo). Eu tô comendo uma fatia de melancia bem suculenta na minha sacada, vendo o fim de semana chegar na vizinhança. A vida tem um jeito de ser linda.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 10/01/2026
Dragon Quest VII Reimagined (irrelefante.com.br/notas/2026/01/10…)
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Dragon Quest VII Reimagined
Tô jogando a demonstração do _Dragon Quest VII Reimagined_ e ela é tão linda… como eu queria que os novos _Pokémon_ desistissem de querer parecer com o anime e abraçassem esse estilo, um bom híbrido entre que respeita o histórico 2D da franquia mas é cheio de profundidade e textura.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 06/01/2026
Amizade e sentido (irrelefante.com.br/textos/2026/01/0…)
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Amizade e sentido
Há pouco mais de um ano eu perdi uma amizade. Foi um momento que me machucou muito. Eu gosto muito de fazer amigos e me dedico bastante a manter minhas amizades. Eu descobri, bastante cedo, que amizades são relacionamentos preciosos e frágeis, que aquilo que as torna tão únicas são justamente aquilo que as desfaz. No início desse processo eu achei que o fim dessa amizade estava acontecendo pela distância. Não a distância física em si (nós éramos praticamente vizinhos), mas emocional. Acontece: estávamos em momentos distintos de nossas vidas e , em determinados momentos, a gente quer se cercar de pessoas que estão passando pelo mesmo que a gente. Eu levo esses distanciamentos numa boa, porque não são necessariamente definitivos. As vezes a reaproximação parece muito difícil, e a gente percebe que não existe mais aquele pequeno universo entre duas pessoas que é todo nosso pra nutrir e criar. As vezes ela é muito fácil, e acontecem alguns daqueles momentos mágicos em que rever aquela pessoa é como se o tempo não tivesse andado — a química continua lá, o papo continua fácil, a companhia continua gostosa. Só que não foi isso que aconteceu. Amigos em comum me “mandaram a notícia” de que a amizade acabou porque, segundo a outra pessoa, ela não via mais sentido nessa amizade. Essa frase ficou girando na minha cabeça por muito tempo, exatamente assim — “não fazia mais sentido, não fazia mais sentido”. Qual é o _sentido_ de uma amizade, afinal? Eu digo isso como um questionamento sincero. Amizades são preciosas e frágeis por sua própria natureza. Diferente de relacionamentos familiares e profissionais que possuem rituais como o “dia das mães” ou o “happy hour da firma”, amizades não possuem amarras. Amizades são o resultado de uma sintonia entre as pessoas, uma química inexplicável entre experiências e interesses em comum que geram carinho e afeto. Amizade é o único tipo de relacionamento disponível pro ser humano em qualquer estágio de sua vida. Diferente das outras, como nossos parentes e nossos colegas de trabalho, ser um amigo é uma escolha constante. É justamente esse aspecto especial que o torna tão frágil: não há nenhuma amarra na nossa sociedade que force uma amizade a existir — o convívio na escola e no trabalho até podem resultar em amizades, mas nunca é dado que isso vá acontecer —, e não existem rituais pré-definidos que garantam sua manutenção. Cada amizade é única, é mantida completamente pelo interesse entre as pessoas que formam essa amizade e, na falta dele, ela se dissolve. Eu defini, há muito tempo, que amizades são as relações mais importantes da minha vida. Eu acerto rituais com meus amigos: aniversários precisam ser celebrados, bem como datas importantes; mensagens, sem necessariamente ter nenhuma informação pra dar, são frequentes; sempre que possível, marcamos algo. Existe um balanço aí que é difícil de alcançar mas que eu acho que manejamos bem: a leveza de uma amizade precisa ser mantida, então comemoramos sempre, não forçamos encontros quando a rotina está pesada, e as vezes nem precisamos falar muito quando estamos juntos — só a companhia já basta pra aliviar o cansaço ou a tristeza. São meus amigos que existem no meu dia-a-dia, e muitas dessas amizades surgiram justamente durante as nossas rotinas. Muitas das minhas amizades começaram em contextos diferentes do que os que a gente vive hoje. Alguns eram colegas de escola, outros de trabalho; alguns eu conheci quando ia em um café que não existe mais, e outros eu não vejo há quase uma década porque moramos em lugares distantes. Não existe um sentido para eu manter contato com essas pessoas, além do afeto. Da troca de um sorriso ou de um suspiro. Diferente da nossa família, e do nosso trabalho, nossos amigos estão livres de sentido. Quando uma amizade acaba, não é porque o sentido dela se foi. O que não existe mais é o amor.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 01/01/2026
Columbus (irrelefante.com.br/reviews/2026/01/…)
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Columbus
Primeiro filme que eu assisti esse ano foi _Columbus_ (2017), dirigido por Kogonada. Achei um filme muito lindo, que se interessa tanto pelas suas personagens quanto os espaços que elas percorrem. Tem uma aura de cidade pequena que me agrada muito, e gosto também da calma com que Kogonada enxerga seus filmes — algo que me impressionou muito no outro filme que eu vi dele, _A Vida Depois de Yang_. Me pegou de surpresa como o ato de enxergar é importante pro cinema de Kogonada. Não só o de ver, mas seus personagens se preocupam se eles enxergam, realmente, aquilo que eles amam. Em _A Vida Depois de Yang_ , o robô suspira quando diz que ele queria realmente apreciar chás, não só enumerar curiosidades sobre chá. Uma boa parte da preocupação de Casey e Lin em _Columbus_ é em enxergar o que os faz amar onde eles estão: Casey primeiro comenta sobre as curiosidades do arquiteto, de suas inspirações para os materiais, mas Lin insiste que ela diga porquê ela ama aquele lugar, e é quando ela desaba. É um duplo jogo de fantasma, esse: os prédios que Casey apresenta pra Lin parecem assombrar os dois, por motivos distintos — ela está presa naquela cidade, e aprendeu a amar os prédios que ela frequenta; ele tenta entender o amor do pai distante pelo ofício. No fim, quando vemos esses espaços vazios, eles também parecem ser assombrados. Não só pelos personagens que antes estavam lá, mas por todas as pessoas que um dia já olharam pra cima e conseguiram _enxergar_. É o que a gente deixa pra trás. Lindo filme pra começar o ano. Tá na MUBI.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 31/12/2025
Caminhadas por aí (irrelefante.com.br/notas/2025/12/31…)
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Caminhadas por aí
pukicho: > pukicho: > >> There is literally nothing more powerful on this planet than taking a 15 minute walk twice every day. > > If you have ADHD like me, walk 15 minutes twice a day like your life depends on it.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 30/12/2025
As cinco melhores coisas de 2025 (irrelefante.com.br/textos/2025/12/3…)
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As cinco melhores coisas de 2025
Há mais de uma década eu faço uma lista dos cinco melhores filmes, jogos, séries, músicas e links que eu descobri no último ano. De 2014 até 2023 elas foram publicadas no Pão com Mortadela a do ano passado no meu blog pessoal. Pela primeira vez, vou fazer uma listinha aqui no _Irrelefante_. Eu vou mudar um pouco como essa lista é pensada esse ano. Ao invés de só considerar lançamentos, a lista desse ano também terá minhas descobertas favoritas. É uma mudança que ajuda a refletir como minha dieta cultural tá mudando com o tempo também: as vezes eu só consigo jogar um jogo anos depois dele ter sido lançado, ou vejo um filme décadas depois, explorando alguma recomendação antiga que recebi de alguém. Principalmente, eu descubro músicas favoritas lançadas antes mesmo de eu nascer, e raramente leio livros lançados no ano atual. Abrindo a lista para descobertas me permite escrever sobre meus livros favoritos do ano, e refletem melhor como eu escuto música ultimamente. Talvez a mudança seja sentida menos em listas de filmes e séries, por exemplo. Boa parte da minha dieta cultural no cinema e na TV é de lançamentos, mas não se surpreenda se um filme dos anos 1940 ou uma série que você viu há muitos anos começar a aparecer nessas listas com o tempo. Lembrando: embora o melhor de cada categoria seja destacado, as outras quatro recomendações estão em ordem alfabética. (Meu muito obrigado ao Raul (@raulranma pela ilustração no topo desse post. Eu sempre peço as artes de última hora pro Raul e ele sempre arrasa, mesmo no prazo apertado. Ano que vem vou fazer diferente, Raul! Eu juro!) Eu espero que você goste das sugestões e que essa lista te ajude a descobrir coisas bacanas em 2026. A gente se vê por lá. ## O filme: ## Foi Apenas Um Acidente Jafar Panahi, 2025 A nova obra-prima de Jafar Panahi, e talvez seu melhor filme para começar com a carreira do diretor até aqui. Um lindo exemplo de como o cinema iraniano emprega uma poesia visual que cinema nenhum do mundo consegue se equiparar, essa pequena história de um grupo de pessoas que acham que encontram seu torturador e discutem o que devem fazer com ele é assombroso — literalmente, seu final me assombra até hoje, por tudo o que ele não mostra e por tudo o que ele indica. **E também:** * _A Hora do Mal_ (Zach Cregger, 2025). O evento cinematográfico do ano para mim. Uma conquista ousada na direção, Zach Cregger tem o público na palma da mão enquanto navega pela vida de pessoas desesperadas tentando entender o que aconteceu com elas e com as crianças que desapareceram. A virada de faca no estômago no último ato é tão magnífica que quase ofusca as duas horas de perfeição que vieram antes dela. * _Uma Batalha Após A Outra_ (Kelly Reichardt, 2025). Eu não estava esperando um filme tão tópico de Paul Thomas Anderson. Ele entrega um de seus filmes mais ousados, um filme de ação em que o motor é o amor de um pai por uma filha, mas que deixa pelo caminho histórias de revoluções implodidas e arrancadas das mãos das pessoas. É desesperador de assistir, mas tem um fiozinho de esperança tão lindo no final que traz aquele PTA romântico de _Trama Fantasma_ de volta. * _The Mastermind_ (Kelly Reichardt, 2025). Kelly Reichardt observa a pequenez do homem ressentido nesse filme de assalto em que, em um filme mais tradicional, um ex-filho prodígio deveria aprender a lidar com a própria mesquinharia. Não aqui: Reichardt leva o ex-artista, ex-arquiteto, agora-ladrão de Josh O’Connor até às últimas consequências do seu egoísmo, e desfere a ele um último golpe de justiça divina no final. * _Valor Sentimental_ (Joachim Trier, 2025). São poucos os filmes que sobrevivem à própria inspiração quando essa inspiração é o drama de Ingmar Bergman mas Joachim Trier consegue ao não confundir inspiração com emulação. Esse não é um filme bergmaniano, mas um filme que, como os de Bergman, se preocupa com as emoções mais ocultas, aquelas que nós fingimos que não sentimos, que escondemos sobre nossos outros sentimentos porque seria doloroso demais mostrar a saudade ao invés da raiva, ou a solidão ao invés do amor. _Valor Sentimental_ é um filme que respira, que vibra, e que sente. ## O jogo ## Despelote Julián Cordero e Sebastián Valbuena, para PlayStation, Xbox, Switch, PC e Mac As vezes, bem raramente, aparece um jogo como _Despelote_ que consegue alcançar o que eu imagino que seja a ambição máxima de um game designer: de permitir que você sinta uma experiência além da sua própria vida através de novos olhos. Em _Despelote_ , é a sensação de orgulho nacional quando a seleção de futebol avança para uma nova etapa na Copa do Mundo. _Despelote_ é todo sobre o amor pelo futebol, pela forma como esse amor move sonhos e cria comunidades. É um jogo que me faz querer estar junto das pessoas, de sentir com elas, de tirar os calçados e sentir a textura do chão. Um dos melhores jogos que eu já joguei. **E também:** * _Blippo+_ (Panic para Nintendo Switch, Playdate e PC). Uma das experiências mais mágicas que eu já tive foi ir visitar uns amigos dos meus pais que viviam em outro lugar e, numa noite mal dormida, ficar navegando na TV por canais estranhos, muito longe dos habituais 5, 7, 10, 12 e 14 da TV da minha casa. _Blippo+_ traduz essa experiência para um jogo, e traz de volta um pouco daquela TV feita na marra, de programas feitos por universidades regionais e colocados na TVE no meio da semana. É tudo tão estranho e tão lindo. * _Blue Prince_ (Dogubomb para PlayStation, PC e Xbox). Antes de _Despelote_ tomar o primeiro lugar, _Blue Prince_ foi meu jogo do ano. Um mistério sobre como chegar na última sala de uma mansão com determinadas regras, me lembra muito de um outro jogo que eu amo e que é organizado proceduralmente, _Dear Esther_. É ótimo se sentir perdido nos corredores de _Blue Prince_. * _Metroid Prime 4: Beyond _(Retro Games para Nintendo Switch). Insuportável o discurso ao redor do quarto _Metroid Prime_ , mas esse é o legado do primeiro jogo da série, uma perfeição que até hoje pouquíssimos jogos conseguiram alcançar. _Beyond_ não chega nos altos do primeiro _Prime_ , mas é um jogo de ação e exploração como poucos — explorar Viewros através dos olhos de Samus é uma das experiências mais bacanas que eu já tive, e o maior motivo hoje para ter um Nintendo Switch 2. É um jogo belíssimo. * _To a T_ (uvula para PlayStation, PC e Xbox). Estranho, no melhor sentido em que um jogo pode ser estranho. _To a T_ é um belíssimo jogo que consegue traduzir para a jogabilidade a sensação de ser estranho em uma situação, de não conseguir fazer do jeito que outras pessoas fazem. Nunca vi um jogo explorar as diferentes capacidades humanas na jogabilidade. Que bom que esse charme de jogo tem um olho apurado pra isso. ## O link Cybercultural: Internet History and Its Impact on Our Culture Cybercultural Richard MacManus (Richard MacManus). Virou leitura obrigatória pra mim: de vez em quando, Richard MacManus publica uma cápsula do tempo para a internet que eu cresci. Ele já escreveu sobre como os blogs apareceram e cresceram. Como o RSS se formou. Como o Last.FM capturou algo quando as pessoas começaram a compartilhar o que ouviam. Ele chegou em 2003 agora, o mesmo ano em que eu comecei a usar o computador sem supervisão dos meus pais. Ele provavelmente não vai escrever sobre o Exchange do _The Sims 2_ , mas acho que logo mais chegam os fóruns. Um momento na internet que eu presenciei, que eu participei e que eu adorei. Será que ele vai falar do Orkut também? Lembra quando a internet nos fascinava ao invés de nos ressentir? Esse espírito ainda existe, _Cybercultural_ está me ajudando a reencontrá-lo. **E também:** * _“21 Facts About Throwing Good Parties”_ (Uri, _Atom Bits_). “Festas são um serviço público” é uma constatação que mudou um pouco a forma como eu vejo o porquê de eu gostar de receber meus amigos, de ver eles socializando, de estar feliz em ser uma boa casa para eles. Além de ser um ótimo ensaio sobre como uma festa presta um serviço à sociedade, traz dicas genuinamente boas para tornar as suas melhores (em resumo: faça as pessoas andarem pelo espaço). * _“Notas sobre zumbis”_ (Aline, _Le chouchou_). _Le chouchou_ é uma pérola. De vez em quando, Aline escreve sobre o ofício de ensinar uma língua nova. As vezes, ela aponta uma curiosidade sobre como a língua francesa evoluiu com o tempo. Nesse, ela observa a figura dos mortos-vivos, e encontra a comunhão que temos em como enxergamos a mortalidade e a saudade. _Le chouchou_ sempre emociona. * _Ringtones and Customization: Summer Yapfest 2025_ (_Never Post_). Outra cápsula do tempo, esse episodio do _Never Post_ , meu podcast favorito, é sobre como a gente podia personalizar tudo: de capinhas removíveis dos celulares a fundos na página do MySpace. Onde foi essa possibilidade de fazer as nossas coisas serem _nossas_? Como sempre, _Never Post_ é revelador, divertido e um pouco triste demais. Bem como o fim do ano. * _“You’re overspending because you lack values”_ (Sherry Ning). Venha para uma análise de como trocamos afeto por consumo. Fique pela resenha belíssima de _A Viagem de Chihiro_. ## A música Facing Atlas, by Anna von Hausswolff Anna von Hausswolff (Anna von Hausswolff, do álbum _ICONOCLASTS_). Eu descobri _ICONOCLASTS_ por acaso: lendo alguns comentários no Stereogum, pessoas estavam suplicando para que o autor de um post desse uma ouvida no novo álbum da sueca Anna von Hausswolff. Ainda bem que sou xereta e fui conferir, porque é um álbum transcendental: a música de von Hausswolff é imensa — uma composição de orquestra sinfônica, para traduzir a grandeza e a pequenez de seus pensamentos. A dobradinha _“The Beast”_ e _“Facing Atlas”_ , que abrem o disco, escancaram a metamorfose da grandeza de sensações que parecem que vão nos consumir em sentimentos que precisamos deixar passar. **E também:** * _“Left For Tomorrow”_ (Perfume Genius, _Glory_). É estranho como sentimentos e pensamentos podem ficar muito tempo na minha cabeça, sem nunca deixarmos eles respirarem, assumirem um pouco o nosso ponto de vista para que a gente possa sentir e pensar neles. _“Left For Tomorrow”_ é uma música que parece um desses pensamentos: ela não começa e nem termina, é como se a gente só conseguisse apreciar um momento da música do excelente novo álbum do Perfume Genius antes dela voltar para o fundo da mente. Me lembrou de quando eu era pequeno, e eu viajava com meus pais para visitar os parentes e cochilava olhando para a janela, e ia acordando de vez em quando — as vastidões do pampa aparecendo e desaparecendo enquanto eu abria e fechava os olhos. Que música linda. * _“Love Theme from the Robe”_ (Yusef Lateef, _Eastern Sounds_). Eu comecei a ouvir essa música muito antes de eu encontrar ela. A gente tava subindo uma das muitas escadarias de Valparaíso quando eu comecei a ouvir ela saindo de algum lugar. Conforme a gente seguia na rua, eu encontrei: um pequeno antiquário com um senhorzinho sentado numa cadeira de praia no fundo da loja, com o disco de Lateef tocando no vinil. O chiado era a maior parte da música, mas de alguma forma tudo isso parecia perfeito. Eu coloquei muitas vezes ela pra tocar depois desse dia, só pra lembrar desse momento perfeito que eu vivi. * _“Minas Geraes”_ (Milton Nascimento, _Geraes_). _Geraes_ provavelmente foi minha trilha-sonora do ano. O épico do interior do Brasil que Milton Nascimento fez no fim dos anos 1970 é genial. Sua música final, _“Minas Geraes”_ , é uma música imensa: ela contém uma vida inteira, de um país inteiro. Ela usa toda a voz de Milton, para cantar todas as canções possíveis. Dá pra sentir o tempo passando ao nosso redor. * _“Ruminating”_ (Lilly Allen, _West End Girl_). Nenhuma experiência é única mesmo. Eu já ouvi, senti, pensei muitas das coisas que Lilly Allen descreve no seu escandaloso disco novo. _“Ruminating”_ , que transfere todo um fluxo de pensamento para uma música, sem edições, é cru e cruel para a própria protagonista. É quando ela faz graça dos seus próprios sentimentos. Nunca é mais doloroso, nem mais honesto, do que nesse momento. ## A série ## Ruptura Segunda temporada, Apple TV Foi um ano sensacional para a TV, daqueles que é difícil de escolher quais cinco séries eu vou escolher pra colocar na lista de fim de ano, e _qual das cinco_ eu vou destacar. Eu bambeei durante o ano, porque teve muita coisa boa, mas ninguém tirou o reinado de _Ruptura_ , que veio lá no início de 2025 e assombrou todo o meu ano. Três anos depois da primeira temporada, eu tava curioso pra ver se _Ruptura_ ia conseguir ser a série estranha mas apaixonante que foi em sua segunda temporada. Segundas temporadas são, eu acho, as mais difíceis de acertar: você precisa entender o que as pessoas gostaram na estréia, mas também precisa “explodir” a série para permitir que ela cresça para além da premissa original. E “explodir” é exatamente o que _Ruptura_ faz em sua segunda temporada, e eu não tenho ideia de como a série vai seguir em frente quando voltar para seu (já confirmado) terceiro ano. O que importa aqui é que _Ruptura_ conseguiu: pegando exatamente do gancho de onde paramos, a série se contorceu e se transformou em uma visão ainda mais madura e assombrosa da relação do ser humano com o trabalho — e encontrou, ali no meio, uma história de amor assombrosa de tão trágica. Nenhuma outra série esse ano foi tão bonita, tão audaciosa, e tão emocionante. Mas não foi por falta de tentativa. **E também:** * _Hal & Harper_ (minissérie, MUBI). Queria que não fosse uma minissérie, mas é uma pérola — Cooper Raiff cria uma das poucas históricas que conseguem enxergar como é difícil ser filho, de navegar pelas frustrações e expectativas de seus pais, mesmo quando crescemos. * _Andor_ (2ª temporada, Disney+). Eu duvidava que iam conseguir, mas o segundo ano de _Andor_ superou a já incrível primeira temporada, e é a melhor história do universo _Star Wars_ , a ponto de ter estragado todo o resto um pouquinho. A gente se contentava com pouco. _Andor_ entregou uma das visões mais didáticas sobre como o fascismo vence, e o custo que é revolucionar. * _Pluribus_ (1ª temporada, Apple TV). Eu acho que todo mundo já viu _Pluribus_ , mas se você não viu, eu não quero estragar a maior surpresa que você vai ter nesse ano. Eu não te duvido que ela seja a melhor série do ano na segunda temporada — é muito bem escrita, dirigida, montada e, principalmente, atuada. O tipo de série que a gente quer ir pro escritório conversar sobre com os colegas no dia seguinte. Nem parece feita no nosso tempo. * _The Pitt_ (1ª temporada, HBO Max). Outra série que parece vinda de outro tempo: uma mistura de _24 Horas_ com _Plantão Médico_. Eu não sabia que eu queria algo assim, mas fiquei tão feliz que _The Pitt_ entrega. Tem a crueza, a intensidade e a emoção do clássico drama médico; mas é nova, empolgante e audaciosa com sua estrutura narrativa. Louco pra ver a segunda temporada que estreia no início de 2026.
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mau alcântara @maucantara.com · 20/12/2025
Meu gato morreu em abril, e quando a saudade aperta eu brinco que ele não tá aqui porque tá dando rolê pelo mundo (coisas como "uma hora dessas o safado tá arrumando confusão em Hong Kong", bobagens assim). Essa thread me desmontou demais, agora tô aqui com uma crise de choro que há meses não tinha.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 08/12/2025
John Gruber sobre a existência dos cinemas (irrelefante.com.br/notas/2025/12/08…)
irrelefante.com.br
John Gruber sobre a existência dos cinemas
John Gruber, no Daring Fireball, comentando sobre a compra da Warner Bros. pelo Netflix: > The LA Times article goes on to cite concerns from the movie theater industry, based on Netflix’s historic antipathy toward theatrical releases for its films. Netflix is promising to keep Warner Bros.’s film studio a separate operation, maintaining the studio’s current support for theatrical releases. I hope they do. I grew up loving going to the movies. I still enjoy it, but the truth is I go far less often as the years go on. Movie theaters shouldn’t be a protected class of business just because there’s so much affection and nostalgia for them. If they continue sliding into irrelevance, so be it. That’s how disruption, progress, and competition work. Eu acho tristíssima essa observação, porque ignora o aspecto cultural do cinema como um espaço de comunidade, de acesso à arte na forma mais apropriada pra experimentar ela. Se eu posso ver um filme no Netflix, e o Netflix faz mais dinheiro que uma sala de cinema, o Netflix é mais bem sucedido em exibir aquele filme? É como argumentar que, agora que eu posso olhar pra Mona Lisa na Wikipédia, o Louvre não tem mais razão de existir.
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 26/11/2025
Complexidades e incertezas (irrelefante.com.br/notas/2025/11/26…)
irrelefante.com.br
Complexidades e incertezas
cameoappearance: > notbecauseofvictories: > >> A customer contacted our team with questions, and then finished their email with: “I am daunted by the complexities and unknowns.” I haven’t been able to stop thinking about it since. > > Reblog if you are daunted by the complexities and unknowns
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Irrelefante @irrelefante.com.br · 23/11/2025
Você e seus amigos blogando (irrelefante.com.br/notas/2025/11/23…)
irrelefante.com.br
Você e seus amigos blogando
altered0: > something about how informal blogs sometimes work like diaries but better because you don’t get as overexcited and stressed about starting a whole new thick book you have to fill up nicely. instead it’s just you and your friends and you’re all in this infinite world together and it’s never empty and never full and you can add whatever you’d like to it
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